EUA: pacote tardio pró-emprego não passa de marketing eleitoral
 

O programa de suposto combate ao desemprego, anuncia do por Barack Obama em caudaloso discurso no Congresso dos EUA, é bem característico daquela mentalidade, comum nos últimos tempos, que acha o marketing mais importante que a realidade. Até um nome pomposo (“American Jobs Act”), que cheira a agência de publicidade imitando os nomes das grandes iniciativas do governo Roosevelt, foi lançado antes mesmo de haver qualquer ato, lei ou proposta.

Durante dois anos e meio, o governo Obama não apenas se lixou para o desemprego nos EUA, não apenas implementou uma política que aumentou o desemprego, mas até mesmo considerou que o desemprego não era um problema econômico, que a economia podia se “recuperar” sem que o emprego se recuperasse, e que a prioridade – como afirmou o secretário do Tesouro, Timothy Geithner, um funcionário do Council on Foreign Relations, dos Rockefellers, e ex-empregado da Kissinger Associates – não era o combate ao desemprego, mas os cortes de gastos e investimentos públicos que levavam, e estão levando, a mais desemprego.

Em suma, a prioridade interna do governo Obama sempre foram os monopólios financeiros, a começar pelos US$ 787 bilhões fornecidos aos bancos logo em janeiro de 2009, quando tomou posse. Ele podia, perfeitamente, ter impedido essa pilhagem, aprovada pelo governo Bush, em cima do povo norte-americano. Mas não o fez. Pelo contrário, aumentou a drenagem de dinheiro público para os grandes bancos. Nem mesmo o programa para renegociar as hipotecas ele levou à frente – o que resultou em 13 milhões de despejos, segundo o procurador Neil Barofsky, inspetor-geral especial do bailout dos bancos até março deste ano.

 

Eleição à vsta

Agora, com uma eleição à vista, e com Obama em segundo lugar nas pesquisas eleitorais, ele anuncia supostos US$ 447 bilhões para combater o desemprego, com um discurso demagógico, que parece muito com outro - aquele que, na Alemanha da década de 30 do século passado, prometia uma mulher para cada homem e um homem para cada mulher.

O leitor pode achar que estamos exagerando, ao comparar o discurso de Obama com o de Hitler. Mas o que podemos dizer de um programa de combate ao desemprego que, na verdade, a única coisa que tem de concreto é um corte de US$ 240 bilhões na receita da Seguridade Social? De um programa que, fora esse aspecto, é feito para não ser aprovado pelo Congresso?

O chamado neoliberalismo sempre pretendeu massacrar a população em prol de meia dúzia de bancos e resolver o resto dos problemas com marketing. Segundo esses cabeças de alfinete, o marketing é suficiente para convencer a todos que é um grande negócio ser roubado, de que é uma maravilha o dinheiro que o povo paga em impostos ser apropriado por um punhado minúsculo de especuladores, de que é o suprassumo da modernidade a propriedade pública – isto é, a propriedade da coletividade – ser transferida para alguns poucos monopolistas privados.

Essa é a origem dessa mentalidade do marketing: a moderníssima concepção de que o povo é burro, de que, contanto que o marqueteiro seja competente - isto é, sem escrúpulos -, a população vai ficar satisfeitíssima no desemprego e na miséria, sendo pilhada por alguns vigaristas.

Mas as coisas não são assim, felizmente.

Os EUA estão, segundo o último boletim do Departamento do Trabalho, com 25 milhões e 610 mil desempregados. Esse total - assim são certas estatísticas - é a soma do “desemprego aberto” com os trabalhadores “excluídos” da força de trabalho por desistirem de procurar emprego (“discouraged workers”) ou por aceitarem algum subemprego (“labor underutilization”) durante uma parte do dia (cf. USDL, BLS, “Employment Situation Summary August 2011”, 02/09/2011, tabelas A e A-16).

O plano de Obama, se fosse sério, é criar, segundo as estimativas otimistas, 50 mil empregos por mês. Reparemos que a média dos últimos três meses foi 35 mil empregos. Logo, mesmo no caso de se levar a sério esse mal chamado “American Jobs Act”, haveria um aumento na criação mensal de empregos, na maior economia capitalista do mundo, de meros 15 mil empregos (v. Binyamin Appelbaum, “Plan’s Focus on Social Security Taxes Reflects Its Modest Ambitions”, TNYT, 09/09/2011).

Não diremos que isso é brincadeira, porque é, antes de tudo, cinismo e insensibilidade para com a situação do povo.

 

Oposição

Obama não tem, nem ao menos, o artifício de culpar o governo Bush pela catastrófica situação do emprego nos EUA: considerando a estatística oficial, com o mesmo critério que usamos para agosto de 2011, havia 22 milhões e 110 mil desempregados em janeiro de 2009, quando Obama entrou na Casa Branca. Portanto, a sua política aumentou o número de desempregados em 3 milhões e 500 mil pessoas (cf. USDL, BLS, “Labor Force Statistics from the Current Population Survey 2001-2011”, ext. 13/09/2011).

O mais interessante – embora inteiramente previsível – é que os republicanos se apressaram em dar apoio, ou algo parecido, ao plano de Obama, até mesmo o presidente da Câmara, John Boehner, um lobista de Wall Street (mais especificamente, do Goldman Sachs), eleito por Ohio.

Naturalmente, ele achou muito boa a redução da contribuição à Seguridade Social das empresas e dos trabalhadores, de 6,2% para 3,1% (ou seja, o plano de Obama corta metade da receita da Seguridade).

O resto – os empregos na reforma de casas e escolas, etc., que, na verdade, são uma parte pequena do “plano” - Boehner acha que é só demagogia eleitoreira. E tem razão, não fosse ele um especialista no assunto.

Sobre isso, para que o leitor tenha uma ideia, se essa parte do plano for aprovada, basta imaginar quantos empregos a reforma de 35 mil escolas vão proporcionar ao povo norte-americano, num país com mais de 25 milhões de desempregados.

 

Califórnia

Alguns economistas notaram que a Califórnia fez um programa semelhante, US$ 186 milhões gastos para a reforma de casas e escolas, com o que a economia californiana viu-se acrescida do impressionante número de 538 empregos.

Evidentemente, é o que acontece quando não se enfrentam os problemas reais da economia, os problemas da produção, do parasitismo dos monopólios e da especulação financeira, e passa-se a fugir para o marketing, para a propaganda enganosa, em síntese, para o trambique eleitoral. Mas isso, ao fim e ao cabo, jamais resulta em nada mais do que um rato – aquele que, segundo o ditado, foi parido por uma montanha. Porém, nesse caso, até a montanha é uma fraude.

 

Carlos Lopes
Data da Publicação: 14/09/2011


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