Saque das múltis do país para o exterior cresceu 24% neste ano
 

* Carlos Lopes é vice-presidente nacional do PPL

 

O que mais chama atenção no balanço de pagamentos, divulgado pelo Banco Central no dia 23, é o fato do saldo comercial ter praticamente duplicado de janeiro a agosto deste ano, em relação ao mesmo período do ano passado, e, no entanto, a situação das contas externas ter piorado.

 

Em números: o saldo comercial (exportações menos importações) passou de US$ 11,68 bilhões (janeiro-agosto de 2010) para US$ 20 bilhões. Portanto, cresceu US$ 8,3 bilhões.

 

No entanto, o déficit externo, o chamado déficit nas transações correntes ou em conta corrente (essencialmente, saldo comercial menos remessas para o exterior), aumentou de US$ 31,21 bilhões para US$ 33,72 bilhões (em 12 meses ele já está em 2,13% do PIB ou US$ 49,73 bilhões, ultrapassando o déficit de todo o ano passado).

 

O problema mais evidente é que as remessas para o exterior (sobretudo de lucros das filiais das montadoras automobilísticas e de bancos estrangeiros para suas matrizes) aumentaram mais que o saldo comercial. As remessas totais aumentaram 24% em relação a janeiro-agosto do ano passado – foram de US$ 44,92 bilhões para US$ 55,68 bilhões. Portanto, um aumento de US$ 10,76 bilhões.

 

Se considerarmos somente as remessas declaradas de lucro das multinacionais (fora as ocultas ou disfarçadas), em agosto elas aumentaram 180% em relação ao mês anterior e 103% em relação ao mesmo mês de 2010. Como disse o presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), Luís Afonso Lima, “há uma explicação estrutural que é o maior investimento estrangeiro, o que aumenta o potencial de remessas. Mas a crise de 2008 também nos ensinou que há um fator conjuntural, que é a necessidade das sedes das multinacionais”.

 

Em suma, as multinacionais estão tapando os buracos das matrizes, devido à crise dos países em que se localizam, com os recursos que extraem daqui – vale dizer, às nossas custas.

 

Quanto à “explicação estrutural”, isto é, a questão de fundo, até o chefe do departamento econômico do BC, Túlio Maciel, reconheceu que o problema é a desnacionalização excessiva da economia – o que, ao mesmo tempo, ele considera positivo, com alguns adjetivos ligeiramente alucinados. Segundo disse, isso é “natural”, pois “o estoque de investimento estrangeiro tem crescido de maneira robusta. Além disso, o bom desempenho da economia brasileira se traduz em lucro”. Portanto, devemos todos ficar satisfeitos porque estamos sendo sangrados. Legalzinho, não é, leitor?

 

O interessante é que não há nada que esse “investimento estrangeiro” produza que empresas de capital nacional não possam produzir – exceto, naturalmente, importações, remessas de lucros e desvios do dinheiro do BNDES, usado para financiar o que o funcionário do BC chamou de crescimento “robusto” (?!) do estoque de investimento estrangeiro.

 

Mas voltemos às contas externas. Para que não houvesse déficit, teríamos que ter, desde janeiro, mais US$ 13 bilhões de saldo comercial do que aquele que tivemos. Mas isso foi impossível, pois, de janeiro a agosto, apesar de um desempenho fenomenal no valor das exportações (US$ 166,71 bilhões), as importações, também em valor, aumentaram 28% - de US$ 114,41 bilhões (2010) para US$ 146,71 bilhões, isto é, aumentaram US$ 32,30 bilhões, quase o tamanho total do déficit externo. O principal contingente dessas importações, os “bens intermediários”, são componentes para as filiais de multinacionais.

 

O modo como se está cobrindo o rombo crescente das contas externas revela mais nitidamente a vulnerabilidade a que estamos expostos. O BC e algumas autoridades comemoraram que em agosto o déficit externo foi coberto pelo “investimento direto”, o que já seria ruim, pois significaria que vendemos mais uma parte do país – mais algumas empresas – para cobri-lo. Porém, é evidente que a entrada de capital estrangeiro é uma fraude. Alguém acredita, com os juros atuais, que só entraram US$ 77 milhões de dinheiro especulativo em agosto? É óbvio que o dinheiro especulativo está sendo falsamente registrado como “investimento direto”, que foi outra vez às alturas, para burlar o IOF do ministro Mantega. Além dos empréstimos bancários, que foram até maiores do que o “investimento direto”.

 

Porém, mesmo se considerarmos apenas o que é registrado como entrada de dinheiro especulativo (“investimento estrangeiro em carteira” e empréstimos), nos últimos 12 meses, para cobrir o rombo das contas externas recorreu-se a US$ 25,63 bilhões desse tipo de entrada, o equivalente a 1,10% do PIB, pendurando essas contas, literalmente, na especulação (cf. BCB, Nota do Setor Externo, Quadro XXV, “Saldo de transações correntes e necessidade de financiamento externo”, 23/09/2011).

 

Notemos que essa cobertura do déficit de 12 meses com dinheiro especulativo externo aumentou, em apenas oito meses, de US$ 1,07 bilhão (dezembro/2010) para os mencionados US$ 25,63 bilhões.

 

Em resumo: devido à desnacionalização (o estoque de investimento direto estrangeiro, ou seja, de propriedade estrangeira no país, em agosto, era de US$ 538,40 bilhões) o país é espoliado por importações e por remessas de lucros para o exterior, ambas facilitadas por um câmbio manipulado.

 

Para cobrir o rombo que resulta dessa espoliação, recorre-se a dinheiro especulativo estrangeiro. A desnacionalização, portanto, acarreta a dependência da especulação externa. Talvez não haja melhor demonstração do quanto valem as teorias de que haveria um capital estrangeiro “bom” (o investimento direto ou desnacionalização) e um capital estrangeiro “mau”, o especulativo. No frigir dos ovos (!), capital estrangeiro não é colesterol.

 

Carlos Lopes
Data da Publicação: 28/09/2011


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