O mito da “Economia do Conhecimento”
 

Seguem, em duas partes, os principais trechos da matéria publicada por Cockburn no site Counterpunch, do qual é editor

“No Século 21, o melhor programa anti-pobreza que pode existir é uma educação de primeira linha”, famosa declaração do presidente Obama em sua Declaração do Estado da União de 2010, enquanto milhões de secundaristas por toda a nação embarcavam nos rituais de busca de suas faculdades a serem escolhidas e estudavam a grande quantidade de prospectos, com os pais atentos, de faces em chamas diante das anuidades à vista. 

A imagem é dos estudantes impulsionados das salas de aula para empregos bem pagos que exigem capacitação avançada e todos as artes e ofícios que podem fazer os Estados Unidos novamente um grande país - superando em pensamento e em conhecimento os chineses, japoneses, indianos, sul-coreanos e alemães na economias de alta tecnologia de ponta de amanhã. 

Comecemos pela matéria prima desta épica batalha do conhecimento. Como uma ducha de água fria sobre todo essa conversa de alto nível, vale a pena olhar o livro “Academicamente à deriva: aprendizagem limitada nos campi” de Josipa Roksa e Richard Arum, recentemente publicado. Os dois professores acompanharam mais de 2.300 estudantes ainda não graduados em 29 universidades, selecionados para representar o leque 2000 instituições de ensino superior de mais de quatro anos.
Como resumiu Steven Kent em Daily Finance: 

Entre as descobertas dos autores: 32% dos estudantes que acompanharam - em um semestre - não escolheram qualquer curso que ministrasse leitura de mais de 40 páginas por semana. Metade destes não escolhiam qualquer cadeira na qual se exigisse mais de 20 páginas de escrita em todo o seu desenrolar. Além disso, 35% dos estudantes da amostra gastavam cinco horas ou menos por semana estudando em ambiente isolado. 

Estudantes típicos tomavam 16% de seu tempo em atividade acadêmica e estavam “academicamente envolvidos”, segundo os autores, durante menos de 30 horas por semana. Depois de dois anos nas faculdades, 45% dos estudantes demonstravam não atingir ganhos significantes nos estudos; depois de quatro 36% mostravam pequena evolução e os que mostravam evolução, atingiam apenas avanço modesto. Os estudantes em geral investem 50% menos tempo estudando do que aquilo que investiam os estudantes a poucas décadas. 

Estudantes graduados nos campos de filosofia, história e inglês mostravam “ganhos significativamente maiores em termos de pensamento crítico, raciocínio complexo e capacitação de escrita ao longo do tempo do que os estudantes em outros campos do estudo”. Mas é claro que estes são os cursos e professores podados sem piedade. 

Um dos autores do estudo, Richard Arum, afirma que os conselhos diretores das faculdades, que despejam colossais somas a seus presidentes, treinadores de educação física e principais cargos do corpo administrativo, exigem que o foco seja na “retenção do estudante”, o que também é conhecido como fazer um grande esforço para não afastar ninguém que não esteja fazendo qualquer trabalho mensurável. Como dito por em Faculdade do Dinheiro, “os estudantes tendem muito mais a deixar a escola quando não estão socialmente engajados e as faculdades e universidades cada vez mais vêem os estudantes como clientes e consumidores. Infelizmente, não há garantias de que todos os estudantes queiram se expor a um programa acadêmico rigoroso.”

Rick Santorum desdenhou de forma concisa a ida à faculdade: “O presidente Obama disse uma vez que quer todos na América indo à faculdade. Que esnobe”. Apupado até por governadores republicanos, foi uma espécie de escárnio do qual não demorou para se retratar. A verdade, é que somente 30% dos americanos com idade acima dos 25% possuem curso superior (graduação). Jack Metzgar, professor emérito de ciências humanas na Universidade Roosevelt em Chicago, mantinha um trabalho muito útil sobre Perspectivas da Classe Trabalhadora, no blog do Center for Working Class Studies Site (Portal dos Estudos da Classe Trabalhadora), com fatos e reflexões muito úteis. 

O Bureau of Labor Statistics (BLS) (Birô de Estatísticas do Trabalho) do governo federal informa que em 2010 somente 20% dos trabalhos requeriam uma graduação superior, enquanto que 26% dos trabalhos nem sequer exigiam um diploma de curso médio completo e outros 43% exigiam apenas um diploma de curso médio ou equivalente. 

Note-se que os 69% sem faculdade estão, portanto, livres de uma dívida que recai mais certeira do que qualquer imposto - o empréstimo estudantil. Afinal se você estiver comprovadamente quebrado, o IR aceita uma “oferta de compromisso”. De fato eles tornaram recentemente o processo sensivelmente mais fácil. Não há essa sorte com o empréstimo estudantil. Os bancos tiram do seu bolso até que o último centavo de empréstimo, mais juros, tenha sido extorquido. 

Agora a segunda dose de água fria. O BLS reconhece que por volta de 2020 a esmagadora maioria dos empregos ainda vai requerer apenas um diploma de curso médio ou menos e que cerca de 3/4 de “empregos criados devido a crescimento ou necessidades de reposição” nos próximos 10 anos pagará um salário médio de menos de US$ 35 mil por ano, com cerca de 30% destes com cerca de US$ 20 mil de média no ano (em dólares de 2010). 

Como ressalta Metzgar, corretamente, “ponha-se estes dois conjuntos de números juntos e dificilmente se evitará a conclusão de que os americanos estão educados demais para os empregos que temos ou que vamos dispor. É difícil imaginar porque alguém nos deveria chamar de ‘economia do conhecimento’”. Em outras palavras, milhões de americanos estão até educados demais, pagando infindáveis dívidas aos bancos e se consumindo nos quadros inferiores da Red Bull e cervejarias.

O esnobismo, como sublinha o professor da Universidade Roosevelt – Chicago, Jack Metzgar, parte do fato de que os infindáveis, e na maioria áridos debates sobre a educação nos EUA são conduzidos pelos cerca de um terço que são educados em faculdades e possuem um bom emprego com renda decente. A “economia do conhecimento” nos Estados Unidos precisa agora de mais de 6 milhões com mestrado ou doutorado, com outros 1,3 milhões por volta de 2020. Mas isso ainda será apenas 5% do conjunto da economia. 

Mesmo se expandirmos a definição para incluir os empregos que requerem qualquer estudo além do ensino médio, a “economia do conhecimento” - agora e uma década à frente - ainda vai representar um terço dos empregos disponíveis. Isto é bastante emprego, em torno de 44 milhões agora, e se você trabalha e vive como parte deste um terço, especialmente para os que alcançam os níveis mais altos, mais educação parece ser a resposta para tudo. 

Mas a maior parte da economia da América não funciona assim. 

As maiores categorias ocupacionais de acordo com o BLS (Birô de Estatísticas do Trabalho) foram responsáveis sozinhas por mais de um terço da força de trabalho em 2010 (49 milhões de trabalhos), e elas darão uma contribuição maior ainda aos empregos projetados para 2020. Elas são: ocupações em escritório e apoio à administração (salário médio de US$ 30.710); vendas e ocupações correlatas (US$ 24.370); preparo de alimento e atendimento (US$18.770). Outras ocupações projetadas para fornecer o maior número de novos empregos na próxima década incluem babás (US$19.300), cuidados a indivíduos (US$19.640), enfermagem familiar (US$ 20.560), arrumadores e serviços de limpeza (US$ 22.210), assistentes de professor (US$23.220), operários (não considerados os da construção civil) (US$23.460), segurança (US$ 23.920), e trabalhadores em construção (US$29.280). 

Como escreve Metzgar, “Como indivíduo, obtenha uma graduação em faculdade ou está fadado a trabalhar duro por um salário não lhe dará um padrão de vida decente para uma família. Você pode não conseguir um salário assim, mesmo que tenha o bacharelato mas, sem ele, suas chances são magras e minguantes”. Mas esse é o pontapé de Metzgar: No entanto, enquanto sociedade, “o melhor programa anti-pobreza existente” não pode ser possivelmente “uma educação de primeira linha” quando mais de 2/3 dos empregos não exige nada desse tipo... Nós precisamos parar de reforçar ilusões de que uma boa educação pode em algum momento substituir a ação coletiva - na política, nos locais de trabalho, nas ruas - necessária para reverter um futuro cada vez mais miserável”. 

Então, qual é melhor programa anti-pobreza? Maiores salários para os empregos que já existem, e que atualmente geram ingressos anuais impassivelmente baixos. O salário mínimo norte-americano varia entre US$ 7,25 e US$ 8,67 por hora. De tempos em tempos, até os executivos da Wal-Mart falam em aumento do mínimo, nas palavras do diretor Lee Scott, “nossos clientes simplesmente não têm o dinheiro suficiente para adquirir os produtos de necessidades básicas entre duas datas de recebimento”. O salário mínimo em Ontário, Canadá, está atualmente acima dos US$ 10,00 enquanto que na França acima dos US$ 13,00 a hora. A Austrália elevou seu salário mínimo a US$ 16,00 e tem um desemprego de apenas 5%. 

Qualquer candidato republicano que se comprometesse a elevar o salário mínimo a US$ 12,00 galoparia Casa Branca adentro – a menos que sofresse um disparo mortal da mídia (o Comentariado) ou por algum esquadrão Delta por determinação de Obama a cargo dos banqueiros, afirmando que isso seria um assalto terrorista contra a América. Até alguém como Ron Unz, colunista do The American Conservative – escreveu recentemente: 

“O salário mínimo, que representa uma dessas questões que tem vasto apelo aos eleitores comuns, não tem efeito correspondente entre as elites politicamente estabelecidas. Como exemplo, em 1996, depois de anos de tentativas mal sucedidas de atrair o apoio dos políticos californianos, ativistas sindicais descontentes liderados pela senadora estadual, Hilda Solis, que agora é secretária do Trabalho do governo Obama, reuniu recursos para levar às urnas da votação estadual a proposta de grande aumento de 35% no salário mínimo. Uma vez que os pesquisadores republicanos começaram a testar a questão descobriram que o apoio do eleitor era tão imensamente amplo e profundo que a iniciativa não tinha como ser derrotada, e aconselharam seus clientes republicanos a abrir mão de qualquer tentativa de se opor. Isso levou a medida a passar de forma ampla sem nenhuma oposição organizada. Depois, aquilo que os senhores do Não, do mercado livre, que previram desastre econômico, mostrou-se inteiramente errado e, ao contrário, a economia do Estado cresceu aceleradamente”. 

Estamos no tempo das carroças de gado! [Também usadas durante a Revolução Francesa para conduzir os condenados à guilhotina]. 

* A matéria, da qual publicamos os principais trechos, foi originalmente publicada no site Counterpunch, do qual Cockburn é editor.

Alexander Cockburn
Data da Publicação: 11/04/2012


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