Não Somos Macacos!
 

         Por ocasião de mais um ato racista na Espanha, em que o cidadão brasileiro Daniel Alves - lateral da seleção brasileira de futebol - sendo hostilizado com bananas jogadas em sua direção, ocasionou uma repercussão no Brasil, como, também, em vários países.        Daniel Alves "comeu" a banana que foi jogada em sua direção. Logo, várias pessoas postaram fotos dizendo #somostodosmacacos, inclusive, pessoas que, historicamente, colocaram-se contra as cotas, por exemplo. Agora divulgam a venda de camisetas com o mesmo "dizer", e comem bananas.

         Não sou macaco! Comer as bananas que todos os dias nos são jogadas não resolvem o problema do racismo. O que resolve é o enfrentamento. O que resolve é o desenvolvimento nacional. O que resolve é o investimento público. O que resolve é a educação de qualidade com aumento de vagas nas universidades públicas, popularizando o ensino, e permitindo o acesso e a permanência do povo na educação pública e de qualidade. O que resolve são as instâncias de poder representar realmente a sociedade. O Papa mandar recadinhos não resolve. Enquanto que o vaticano, historicamente, colocou-se a favor defendo a escravidão, e, até hoje, não fez nenhum reparo quanto a isso.

         O jogador Daniel Alves disse: “A 11 anos isso ocorre na Espanha e, até hoje, nada foi feito”. Aliás, na mesma seara do futebol, aqui no Rio Grande do Sul, também, tivemos atos racistas: “E qual foi decisão? Paga-se trinta pila e estamos resolvidos”. Mas o racismo vai muito além do futebol. Muitas vezes é invisível e institucionalizado, porém sempre doído.

         A grande lição de Eduardo de Oliveira - primeiro vereador negro da cidade de São Paulo e fundador do CNAB (Congresso Nacional Afro-Brasileiro) – é de que o nosso destino (dos negros brasileiros) seja inseparável do desenvolvimento, e, portanto, da independência do Brasil. Não existe justiça em meio ao atraso e à submissão. Por isso, todo atentado contra o Brasil, toda tentativa de submeter a Nação à pilhagem de potências e cartéis financeiros imperialistas; toda agressão aos direitos do nosso povo; todo o bloqueio ao nosso crescimento e cerco ao nosso desenvolvimento, atinge, sobretudo, a nós brasileiros de ascendência africana. Construímos este país – material e culturalmente.

         Não somos meramente uma “etnia”, tampouco “macacos”. Nós edificamos esta Nação na medida em que fomos – e somos: “O elemento do povo brasileiro que conformou ou cimentou a sua unidade, que permitiu, a bem dizer, que o povo brasileiro existisse”. Não haveria país, tal como houve e há, sem a nossa contribuição decisiva. Por isso, as tentativas de desintegrar o país; de tornar a sua economia um apêndice da economia de outros países; de restringir a democracia pela subserviência; de destruir a cultura nacional pela invasão colonial – supostamente em prol de “várias” culturas que existiriam no país - de saquear as riquezas com que a natureza nos dotou, estão dirigidas, antes de tudo, contra nós brasileiros negros. É a nossa obra que querem destruir, jogar-nos bananas.

         A suposta ideia de que o Brasil poderia se desenvolver sem ter como protagonistas o povo e a Nação, ou seja nós, com base na submissão às potências e aos monopólios estrangeiros é um preconceito, essencialmente, racista.

         Comer as bananas que nos são jogadas de varias maneiras diariamente é por a culpa na vítima. Assim como nos casos de estupro e de violência contra as mulheres, isto é, concordar com o racismo, e fazer graça para o diabo rir e ter dor de barriga além de empanturrar-se. Não somos macacos!!!

Por Alexandre Marmett Pahim – É Membro da Executiva Estadual do PPLRS e do Congresso Nacional Afro-Brasileiro (CNAB)

Alexandre Pahim
Data da Publicação: 02/05/2014


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