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07/12/2011 | Juros reduzem crescimento a zero no 3º trimestre, diz IBGE

Crescimento de 7,5% em 2010 foi reduzido, de janeiro até setembro, para mísero 3,2%

 

O IBGE divulgou na terça-feira que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) no terceiro trimestre, em relação ao trimestre anterior, foi zero, e somente devido à agropecuária, pois, em valor, a indústria caiu -0,9% e os serviços, -0,3%. Parece resultado da época da República Velha. No ano, isto é, de janeiro até setembro, o crescimento da economia caiu para medíocres 3,2%, inferior até ao famoso “PIB potencial” dos neoliberais (3,5%). Em dezembro de 2010, esse crescimento era 7,5%.

 

Diante dessa débàcle, o suposto pacote de “reativação” da economia, lançado pelo ministro Mantega, é a cara do seu autor: medíocre, inexpressivo, ineficiente, ridículo, submisso ao dinheiro especulativo estrangeiro, evasivo, porque foge a enfrentar o problema real, os juros altos - além de hipócrita, pois passa por cima dos erros que se cometeram nesses 11 meses de governo.

 

Onde já se viu um pacote de “estímulo” que é saudado por especuladores eufóricos com porres homéricos? Pois não foi à toa: no meio das medidas, enfiou-se uma alíquota zero para o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) dos “investimentos estrangeiros em ações”. Não se trata, nem mesmo, do mal chamado “investimento direto”. O que Mantega fez é a eliminação dos 2% de IOF para os especuladores externos que jogam na Bolsa.

 

Quanto ao resto, é mera renúncia fiscal em prol das multinacionais que fabricam a “linha branca” e outras renúncias de menor significação. Triste é o cidadão falar em aumentar os investimentos, enquanto bloqueia os investimentos públicos – por exemplo, até agora somente 15,3% da verba orçamentária para investimentos foi liberada. Qualquer semelhança com a política do “Tea Party”, a direita do partido mais à direita dos EUA, que é sempre corte de gastos públicos e redução dos impostos para os ricos, não é mera coincidência. Tal como a de Mantega, a política do “Tea Party” é, na essência, a expressão dos interesses de alguns abutres financeiros. Pode ser que alguns considerem que a de Mantega é uma versão mais light dessa política, mas não os que já foram afetados por ela – a massa salarial na indústria, segundo a CNI, caiu 1,1% em outubro/setembro, apesar do número de empregados ter aumentado, isto é, já vivemos um arrocho salarial.

 

Do mesmo modo, a produção física industrial caiu pelo terceiro mês seguido, em todas as comparações: -0,6% (outubro/setembro); -2,2% (outubro - 2011/2010);  e -4,7% (outubro/março 2011).

 

Esses são os resultados gerais da indústria. A produção da indústria de transformação (a que não é meramente extrativista) foi pior: -1,5% (outubro/setembro) e -2,4% (outubro - 2011/2010), com a produção de bens de capital caindo, em cada comparação, respectivamente, -1,8% e -0,3%; a de bens intermediários, -0,5% e -0,3%; a de bens de consumo, -1,6% e -4,7%.

 

O único resultado positivo foi do subsetor de bens de consumo duráveis, cuja produção de outubro em relação a setembro aumentou 2,4%, mas apenas porque já havia caído tanto que, em relação a outubro de 2010, houve um abismo: -10,1% (para todos esses números, ver IBGE, “Pesquisa Industrial Mensal - Produção Física – Brasil - Outubro”, 02/12/2011).

 

Se comparada com outras economias em desenvolvimento, o resultado da produção industrial somente não foi pior que a da Tailândia, devido a tremendas inundações que houve naquele país (cf. IEDI, Carta nº 496 - “Produção Industrial em Outubro de 2011: Resultados Negativos”, 02/12/2011).

 

 

Causas

 

Não é preciso gastar muitas palavras com a causa dessa situação, num país, como o Brasil, que cresceu 7,5% em 2010 – com a produção industrial aumentando 10,5%.

 

Antes de tudo: essa queda, quase desabalada, nada tem a ver com a crise internacional. Quem isso disser, ou é palhaçada ou está fugindo da responsabilidade por seus atos – ou os dois ao mesmo tempo.

 

Como seria possível isso não acontecer com cinco aumentos de juros seguidos, com a manutenção das taxas num patamar irracional, provocando uma hipervalorização estúpida do real frente ao dólar – no momento em que os EUA nos bombardeavam com superemissões de dólares desvalorizados – e com um arrocho no crédito e no salário mínimo?

 

Só na fantasia que desliza em cérebros de manteiga, poderia acontecer algo diferente – e nós, e mais muita gente, estamos advertindo desde janeiro que não poderia ocorrer outra coisa.

 

No entanto, o novo pacote é confeccionado sob medida para deixar os juros altíssimos intocados. A professora Maria da Conceição Tavares tem razão ao dizer, em recente entrevista: “pode baixar os juros o tanto que você quiser. O juro não é para a poupança, mas para a especulação e para o rentismo. Não é possível manter uma taxa de juros tão disparatada quanto a nossa. Assim é impraticável”.

 

É óbvio que os juros têm que ser estabelecidos de acordo com os interesses do país, que não há mercado que os determine, tanto assim que, no Brasil, é o Banco Central que decreta o seu piso. Esta é, inclusive, a razão pela qual o BC não pode ser independente do governo, da sociedade e do povo - até porque isso significa que ele passa a ser dependente dos grandes bancos, dos monopólios financeiros: os juros básicos são, necessariamente, uma decisão política. Sem o governo ter controle sobre eles, a política econômica torna-se uma casa da mãe Joana, pois são os bancos que determinam a política monetária.

 

É verdade que o presidente Lula enfrentou essa casa da mãe Joana sem tirar o Meirelles do BC. Mas, em compensação, manteve Mantega sob estrito controle, porque sabia que, se deixasse, lá vinha alguma asneira.

 

Em novembro de 2011, após ser reeleito, Lula falou ao seu partido, o PT. Disse ele: “não podemos nos contentar com o crescimento de 3,5% ou 4%, com o Bolsa Família, com o Luz para Todos ou o trabalho com os quilombolas... Precisamos fazer muito mais. O país está assim, desde 1980, com a economia travada e, agora, está travada muito mais. Eu quero resolver este problema do destravamento do país” (v. HP, 29/11/2011).

 

Dias antes, Lula recusara a primeira versão do PAC, apresentada por Mantega, dizendo: “... com essa mesmice, não se vai a lugar nenhum. É preciso batalhar para se conseguir um aumento do PIB de 5%. Não quero mais desculpas no fim do ano” (v. HP, 17/11/2006).

 

E, antes que nos esqueçamos, Lula também disse: “corte de gastos é um discurso batido. Ao invés de falar apenas em cortar gastos, que falem em como fazer esse país produzir” (v. HP, 15/11/2006).

 

O sr. Mantega não é o primeiro ministro da Fazenda, nem o primeiro economista, a manifestar, por submissão aos bancos, crassa ignorância sobre o assunto no qual se diz especialista. Mas, em relação aos seus antecessores, tem a originalidade de não ser eficiente nem para disfarçar a ignorância e a submissão.

 

Ele funcionou durante a segunda gestão de Lula porque, a rigor, quem funcionava era o presidente – que, aliás, entendia muito mais de economia do que o seu ministro.

 

Talvez a presidente Dilma pudesse fazer essa experiência. Sempre é bom olhar para os exemplos que deram certo.

 

Carlos Lopes

Vice-Presidente nacional do PPL

 
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