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14/03/2012 | Ricardo Joaquim: o combate de um herói do povo brasileiro

Ex-secretário de governo e presidente do PPL do Guarujá foi assassinado na última quinta-feira

 

Ricardo Joaquim Augusto de Oliveira, assassinado covardemente na quinta-feira, dia 8, era um homem raro: ele poderia, diante das reiteradas ameaças à sua vida, das tentativas de intimidação que chegaram até ao sequestro com tortura, ter abandonado a sua terra, o Guarujá, seu povo, seus companheiros, seus amigos.

 

Mas isso era completamente estranho à sua personalidade. Não fazia parte dele. Deixar a luta por um mundo melhor, por uma vida mais justa, por um país desenvolvido, por uma cidade mais humana, por uma terra onde cada um sentisse no outro um irmão, significaria não ser mais Ricardo Joaquim, não ser mais ele mesmo – portanto, era impossível. A luta, a identificação com o próximo, era ele: trabalhador da Petrobrás, ex-diretor do Sindicato dos Petroleiros do Litoral Paulista, advogado, secretário de Segurança e secretário de Governo da Prefeitura do Guarujá até o último dia 1º.

 

Em suma, Ricardo Joaquim era um homem. Um ser humano.

 

Ele lutou, como um bravo e um herói, até o seu último momento. Quando presidia a uma reunião do seu partido, o Partido Pátria Livre (PPL), pistoleiros de aluguel entraram no recinto. Um embuçado foi em direção a Joaquim – que o enfrentou, mas foi atingido várias vezes. Ferido por um tiro no pé, ficou o vice-presidente do PPL do Guarujá, Carlinhos da Prainha.

 

O pistoleiro que disparou usava uma pistola .45, com o conhecido estrondo que uma arma desse tipo provoca. A menos de 50 metros do local da reunião está o 1º Distrito Policial do Guarujá, mas, segundo declarou o delegado titular da cidade, Cláudio Rossi, ninguém notou nada porque “a delegacia fica fechada durante a noite” - a delegacia que tem por função policiar o porto. Mas, segundo o mesmo delegado, “as investigações correrão por lá”.

 

Em dezembro, Joaquim recebera a informação de que o submundo que enfrentava com tanta coragem, em defesa do seu povo, queria eliminá-lo – e o uso dessa palavra, aqui, não é acidental: é assim que essa escória subumana se ilude, como se assassinar um homem honrado, um pai de família, um líder do povo, não fosse despertar, contra eles, centenas, milhares, e até milhões de outros seres humanos dignos, decentes e dispostos a levar até as últimas consequências – isto é, até à vitória - a causa daquele que tombou.

 

Joaquim, após verificar a informação que havia recebido, e comunicá-la à prefeita Antonieta de Brito, de quem era secretário de Governo, procurou a polícia. Nada foi feito. Agora, depois de sua morte, procura-se escamotear essa inação com uma ridícula discussão diversionista de que ele não teria lavrado um Boletim de Ocorrência (BO).

 

A polícia nunca precisou – e não precisa – de um BO para abrir uma investigação ou um inquérito criminal. Todos os policiais, e mais ainda os bons policiais, sabem disso – até porque essa é a sua rotina. Os fatos que Joaquim relatou eram mais do que suficientes para que a investigação fosse aberta. Aliás, lavrar um BO teria sido apenas burocracia. Era necessário investigar a denúncia, que era específica – isto é, era constituída por fatos.

 

Joaquim sabia muito bem para que serve um BO – afinal, ele fora escrivão da polícia, em Santos e Guarujá, durante alguns anos. Seria difícil encontrar autoridade maior em BOs do que ele. Mas o que queria é que a polícia cumprisse o seu papel – que, diante de fatos sobre uma conspiração criminosa, ela investigasse, desmascarasse os criminosos e os levasse ao seu lugar próprio: a cadeia e o banco dos réus.

 

Evidentemente, ele sabia que a escolta ostensiva, que, segundo a prefeita Antonieta, a PM se dispôs a lhe fornecer, não resolvia qualquer problema, exceto o de chamar a atenção dos bandidos, durante 24 horas, para onde quer que estivesse. Não é função da PM investigar – e não é crível que uma viatura tivesse qualquer efeito de dissuasão sobre os assassinos. Para percebê-lo, basta lembrar as circunstâncias do crime de quinta-feira – ou a crônica criminal do país nas últimas décadas.

 

Guarujá é conhecida, com razão, como “a pérola do Atlântico”. Realmente, há poucos lugares no mundo tão beneficiados pela natureza – se assim é lícito a nós se expressar.

 

Entretanto, também são grandes os problemas sociais nesta ilha do litoral de São Paulo, com uma população de cerca de 300 mil habitantes, que aumenta no verão para cerca de 2 milhões – mais que a população de Porto Alegre ou Recife -, com 115 favelas.

 

Quanto aos problemas de criminalidade, que giram em função do porto, bastante mal guarnecido, constituindo-se em atração para o gangsterismo, são conhecidos há muito. Certamente, como acontece em qualquer parte do mundo onde há quadrilhas, elas procuram se infiltrar ou influenciar – às vezes até formar – esquemas políticos para que possam atuar à solta, sem ser incomodadas.

 

A administração da prefeita Antonieta, a que Joaquim forneceu a sua energia, a sua dedicação, a sua inteligência – em suma, o seu talento de líder – se propôs a mudar essa situação, e, com efeito, a contrariou, empreendendo uma obra inédita no Guarujá.

 

Portanto, não foi por acaso que esse submundo voltou-se contra Ricardo Joaquim, e, a alguns meses das eleições, o assassinou. Querem, obviamente, voltar a contar com a complacência, de preferência com a cumplicidade, do poder público local. Mas isso é o que não vai acontecer.

 

Em sua entrevista coletiva de domingo, a prefeita Antonieta referiu-se ao “momento de dor, momento de medo” - e que neste “momento de dor os amigos têm que ficar juntos”. E também disse que o assassinato de Ricardo Joaquim “exige uma apuração feita com rigor. Esse crime não pode ficar impune”.

 

Ricardo Joaquim era casado com Dona Adriana e tinha três filhos: Fernando, Ricardo e Manuela, de dois anos. Que eles recebam a solidariedade, como estão recebendo, de todos os homens e mulheres de bem. A luta de Joaquim é a luta de todos nós.

 

A melhor síntese de quem foi Ricardo Joaquim e de seu legado foi feita, durante as homenagens póstumas, pelo seu amigo, e presidente do PPL de São Paulo, Miguel Manso:

 

“Ricardo Joaquim, filho de estivador, técnico em eletrônica, petroleiro, advogado, secretário de Governo da Prefeitura e presidente do Partido Pátria Livre de Guarujá foi barbaramente assassinado durante uma reunião do nosso partido por criminosos que invadiram a reunião a mando dos que pensam que podem calar a sua voz e impedir que nossa cidade continue as mudanças por ele comandadas. Joaquim morreu como viveu, lutando pela libertação do Brasil e de Guarujá. É um herói desta luta, e o seu sacrifício e o seu sangue derramado fortalecem a convicção e o compromisso do nosso partido e do nosso povo na luta por justiça e liberdade. Seu exemplo de coragem na luta contra as quadrilhas que mandavam no Guarujá será seguido e, como ele não recuou, nós também não recuaremos nem um milímetro, seguiremos avançando nas mudanças, não permitiremos quadrilhas a governar nossa querida cidade.

 

“Nós todos somos Joaquim!

 

“Viva o companheiro Joaquim, herói do povo brasileiro!”.

 
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