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05/04/2012 | Desindustrialização une centrais e empresários contra os juros altos

Lideranças realizam ato em SP, nesta quarta-feira, em defesa do emprego e da indústria nacional da enxurrada de dólares e importações predatórias

A desindustrialização e a desaceleração da atividade econômica unificaram as Centrais Sindicais (CUT, Força Sindical, CGTB, CTB, NCST e UGT) e as principais entidades empresariais do setor produtivo (Fiesp, Fiemg, Abimaq, Abinee, Abipeças, Sinditêxtil/Abit, entre outras) no movimento Grito de Alerta em Defesa da Produção e do Emprego. Apontando a necessidade da urgência de reversão desse quadro, as entidades divulgaram um manifesto com propostas de medidas emergenciais macroeconômicas, de investimento produtivo e de defesa comercial e programaram uma série de manifestações.

“A estagnação da indústria de transformação em 2011 é algo extremamente grave e preocupante. Por este motivo, entidades patronais e de trabalhadores se unem para ressaltar que, apesar do forte crescimento do consumo, o setor industrial reduziu drasticamente a geração de empregos, agudizando ainda mais o processo de desindustrialização no Brasil”, diz o Grito de Alerta.

ESTAGNAÇÃO

Segundo o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, “todos os indicadores e dados relativos à indústria mostram a perda de participação relativa do setor no Produto Interno Bruto do país. Em 1985 a Indústria representava 27% do PIB e hoje representa menos de 15%, segundo o IBGE. Isso é extremamente danoso para o país, já que na indústria de transformação normalmente estão os empregos mais qualificados, os salários relativamente mais altos e, portanto, as melhores oportunidades profissionais”.

As entidades apontam os juros altos, a sobrevalorização do câmbio e a guerra fiscal, que favorecem a explosão das importações, como as principais causas para que a indústria pouco contribuísse para o crescimento do PIB em 2011, que teve uma variação pífia de 2,7%, após um crescimento de 7,5% em 2010.

A alta taxa de juros é um dos pontos centrais a ser enfrentado para reverter o declínio da indústria. “As centrais sindicais, na chamada unidade de ação, têm cobrado do governo queda drástica na taxa de juros. A cada reunião do Banco central temos ido às ruas protestar contra os juros altos. Juros em patamar estratosféricos estrangulam a produção e emperram a geração de novos postos de trabalho. A questão do câmbio é séria. O governo precisa levar em consideração o problema do câmbio supervalorizado que prejudica as exportações”, destacou o presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva (Paulinho).

CÂMBIO

“A principal questão a ser enfrentada no desequilíbrio do câmbio e estimular o investimento industrial é eliminar o diferencial de juros do Brasil em relação aos chamados países ricos, que têm inundado o mundo com um tsunami monetário. Em relação aos Estados Unidos, por exemplo, o diferencial de juros é de 6,8 pontos, um verdadeiro imã para as supermissões de dólares na guerra cambial deflagrada pelos norte-americanos. Resultado: mais dólares entram no Brasil para desnacionalizar nossa economia, para especular na bolsa e investir em renda fixa. E o câmbio continua deteriorado, propiciando uma avalanche de produtos importados e dificultando as nossas exportações. E o que é pior, a nossa pauta exportadora é crescentemente composta por produtos primários. Estamos regredindo aos tempos da República Velha, dos barões do café”, avaliou o presidente da CGTB, Ubiraci Dantas de Oliveira (Bira).

“A taxa de juros no Brasil é uma anomalia, tanto a Selic, quanto a taxa de juros real, paga por empresas e pessoas físicas. A taxa de juros no Brasil é um câncer, que tira dinheiro da saúde, da educação, do investimento e do setor produtivo. A taxa de câmbio deveria pelo menos compensar o “Custo Brasil” e, portanto, 40% acima do valor atual”, ressaltou o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Luiz Aubert Neto.

Ele destacou que “em 2004 de cada 100 máquinas consumidas no país, 60 eram fabricadas no Brasil e o restante nos outros países. Hoje, isso se inverteu: de cada 100 máquinas apenas 40 são produzidas no mercado doméstico e ainda com um agravante adicional, que é o menor índice de nacionalização”.

O aumento do importacionismo, um dos efeitos da desindustrialização, também se verifica no setor de eletroeletrônicos. Conforme números da Associação Brasileira da indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), as importações de bens eletroeletrônicos finais passaram de 15,9%, em 2005, para 21,3%, em 2011. Já as exportações apresentaram perda de representatividade em relação ao faturamento total do setor, caindo de 20,4%, em 2005, para 9,6%, no ano passado. “Estes números mostram que a indústria está cada fez mais frágil, o que já está refletindo na capacidade gerar novas frentes de trabalho. No caso do nosso setor, em 2011, as adições de empregados (5,6 mil) foram 62% inferiores às realizadas em 2010 (14,9 mil)”, frisou o presidente da Abinee, Humberto Barbato.

O presidente da CTB, Wagner Gomes, também bateu na mesma tecla: “A CTB compreende que a principal causa da desindustrialização está localizada no câmbio, mais precisamente na valorização excessiva do real. O fenômeno está claramente associado à política cambial e aos juros altos (o Brasil tem a mais alta taxa básica de juros do mundo), que atraem capital especulativo para a obtenção de lucros fáceis e seguros explorando a diferença entre os juros internos e externos (EUA, Europa e Japão)”.

Nos dias 26 e 28 de março, os atos aconteceram em Porto Alegre e Florianópolis, reunindo milhares de pessoas. Os dirigentes das entidades entregaram aos governadores Tarso Genro (RS) e Raimundo Colombo (SC) o documento “Medidas emergenciais para retomada da indústria nacional”. Nesta quarta-feira (4) o ato será em São Paulo, em frente à Assembleia Legislativa, e no dia 10 de maio, em Brasília.

Entre as entidades que integram o Grito de Alerta estão também a CNM/CUT, CNTM/FS, os sindicatos dos metalúrgicos de São Paulo e do ABC, Abiquim, Abipeças, Abiplast, Abrinq, Abrasi, Abraflex e a UNE.

VALDO ALBUQUERQUE

 

 
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