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11/04/2012 | Como os EUA, em 1831, ajudaram a Inglaterra a usurpar as Malvinas

Hoje, Eduardo Prado é um nome desconhecido daqueles que se educaram quando as antologias já estavam, infelizmente, afastadas da prática educacional. Lembro-me bem disto porque Prado era um dos escritores escolhidos pelo professor Clóvis Monteiro, do Colégio Pedro II, para compor a sua “Nova Antologia Brasileira” - que serviu de iniciação literária para tantos, inclusive em pontos onde a escolha do antologista foi (ou era) discutível.

Nesse caso, porém, boa parte da responsabilidade pelo esquecimento em que caiu, cabe ao próprio Eduardo Prado. Apesar do excelente estilo, de sua grande erudição em assuntos históricos, econômicos e literários, e de sua competência como diplomata, ele passou à História, e com justiça, como o maior propagandista da reação monarquista após a proclamação da República.

Ao contrário de outros monarquistas – seus amigos Rio Branco e Joaquim Nabuco, por exemplo – ele não serviu à República. Acabou marginalizando-se em sua fazenda de café e morreu em agosto de 1901, aos 41 anos de idade. Um triste fim para quem foi o modelo de Jacinto de Tormes, o personagem de seu também amigo Eça de Queirós em “A Cidade e as Serras”.

Eça, aliás, foi quem definiu melhor a literatura de Eduardo Prado:

Todos os seus livros políticos desde os ‘Destinos do Brasil’, perfeito estudo de psicologia social, são, pois, panfletos... Certamente realizam e com singular rigor, a definição de panfleto formulada por Paulo Louis Courier, mestre panfletário deste século. — Que é um panfleto? — ''Uma ideia muito clara saída de uma convicção muito forte, rigorosamente deduzida em termos curtos e límpidos com muitas provas, muitos documentos, muitos exemplos...''" (cit. por Leopoldo de Freitas, prefácio à edição de 1917 de “A Ilusão Americana”).

Infelizmente, os panfletos de Prado estavam, em geral, a serviço de uma causa que já havia passado deste para o outro mundo.

Mas, estranhamente, esse homem combatia a República em nome do nacionalismo. Para ele, a República era meramente uma imitação do governo dos EUA – uma “imposição das instituições anglo-saxônicas da América do Norte ao nosso país...”.

Ao contrário do que se poderia deduzir, Prado também não favorece a Inglaterra, na denúncia que faz dos EUA.

O interessante hoje é que ele soube ver o imperialismo norte-americano numa época em que poucos o viam. Neste sentido, Prado está mais próximo de Rio Branco que de Joaquim Nabuco, transformado em adepto do alinhamento com os EUA, depois de sua nomeação para embaixador em Washington (1905-1910). Até mesmo o ponto de virada final dos EUA para o imperialismo – a guerra hispano-americana, com a anexação das Filipinas – Prado consegue identificar precisamente.

Mais interessante ainda é como esse monarquista descreve o desenvolvimento desse imperialismo, mesmo antes da guerra hispano-americana. Por exemplo, ele reproduz trechos de uma mensagem do presidente norte-americano James Buchanan:

“Está no destino de nossa raça”, dizia na sua mensagem de 7 de janeiro de 1857 o presidente Buchanan “o estender-se por toda a América do Norte, e isto acontecerá dentro de pouco tempo se os acontecimentos seguirem o seu curso natural. A emigração seguirá até ao sul, nada poderá detê-la. A América Central, dentro de pouco tempo, conterá uma população americana, que trabalhará para o bem dos indígenas”.

Ou, abolicionista, como ele aponta o laço entre a política exterior norte-americana e a escravidão:

Quem conhece os documentos oficiais americanos daquela época sabe que toda a política interior e exterior dos Estados Unidos estava subordinada aos interesses da instituição peculiar, eufemismo com que se costumava designar a escravidão. Os Estados Unidos, desde que sabiam que qualquer país americano estava disposto a abolir a escravidão, eram imediatamente hostis à independência desse país.

O pobre Haiti era o objeto do ódio americano. Hamilton, da Carolina do Sul, declarou na câmara dos representantes que a independência do Haiti, por forma alguma, devia ser tolerada; Hayne, acompanhado por todo o seu partido, queria que o simples fato de um país qualquer reconhecer a independência do Haiti fosse motivo para a ruptura das relações diplomáticas com os Estados Unidos.

Sobre a escravidão, ele faz uma observação aguda:

Enquanto no Brasil não houve escravocratas que tivessem o cinismo de querer legitimar a iníqua instituição, nos Estados Unidos (…) publicaram-se livros, sermões, com a apologia científica e até religiosa da escravidão, e chegou o momento em que metade do país julgou que, para conservar e estender a escravidão, valia a pena sacrificar a própria pátria americana. O escravismo sobrepujou o patriotismo.

Ou, sobre o cinismo da “doutrina Monroe”:

O México e a Colômbia lembraram aos Estados Unidos o cumprimento da sua promessa contida na célebre mensagem de Monroe. Henry Clay respondeu que a mensagem continha com efeito uma promessa, mas que os Estados Unidos tinham-na feito a si mesmos e não a um outro país, e que por isso nenhum país tinha o direito de exigir o cumprimento da mesma promessa.

Esses trechos são retirados de seu livro “A Ilusão Americana”, publicado pela primeira vez no longínquo ano de 1893, portanto, há 119 anos.

Para ser inteiramente sincero, não foi nossa a ideia de ler esse livro nem outro escrito do autor, que achávamos já suficientemente julgado pela História. No entanto, dizia Dorival Caymmi, o que vale são os amigos (“meu único capital é a amizade...”). Nosso infalível vereador Werner Rempel, do PPL de Santa Maria, Rio Grande do Sul, leu “A Ilusão Americana” e nos encaminhou o trecho que publicamos abaixo. Vejam, leitores, se não é uma preciosidade (sem nenhuma ironia) o modo como Eduardo Prado aborda a usurpação das Ilhas Malvinas pela Inglaterra e a atitude dos EUA.

Corrigimos a ortografia, mas deixamos intacta a pontuação – pois esta pertence ao estilo do autor.

Carlos Lopes

EDUARDO PRADO

Entre as recomendações que o governo de Washington faz a William Tudor [NOTA: Tudor foi encarregado de negócios dos EUA no Rio de Janeiro de 1827 a 1830] há a de preparar o espírito do governo brasileiro para a notícia que logo lhe seria dada do governo americano haver reconhecido D. Miguel como rei de Portugal. Com efeito, no dia 1º de outubro de 1830 o presidente dos Estados Unidos recebeu oficialmente o Sr. Torlades, encarregado de negócios de D. Miguel. O governo americano foi o único governo que reconheceu o rei absoluto e usurpador de Portugal!

[NOTA: D. Miguel, através de um golpe de Estado em 1828, proclamara-se rei de Portugal, depondo Dª Maria II, filha de seu irmão, o imperador D. Pedro I do Brasil]

Por essa época, o governo dos Estados Unidos tinha já organizado o seu plano de guerra contra o México, outra prova da solidariedade e da fraternidade americana. A má-fé do governo de Washington começou com a questão do Texas. Favoreceu quanto pôde a revolta daquele território, animou-o a separar-se do México para mais depressa absorvê-lo e depois declarou guerra ao México, verdadeira guerra de conquista, humilhou aquela república até ao extremo, e arrebatou-lhe metade do território. Ó fraternidade!

E a doutrina de Monroe, o que era feito dela? A Inglaterra estendia as suas conquistas ao oeste do Canadá até chegar ao oceano Pacífico. Antes já arrebatara, contra todo o direito, as ilhas Malvinas ou Falkland à Confederação Argentina.

E será possível falar nas ilhas Malvinas sem recordar um dos maiores atentados contra o direito das gentes, neste século, atentado perpetrado por uma força naval dos Estados Unidos, e aprovado e sancionado pelo governo de Washington? Em 1831, os argentinos tinham uma colônia nas ilhas Malvinas. Alguns navios de pesca americanos, não quiseram obedecer a umas ordens do governador da colônia. Daí um conflito administrativo e diplomático entre o cônsul americano em Buenos Aires e o governo argentino.

Estava a questão neste pé quando a corveta americana Lexington saiu de Buenos Aires comandada pelo capitão Silas Duncan, foi às ilhas Malvinas, bombardeou o estabelecimento argentino, desembarcou tropa, matou muitos colonos, incendiou todas as casas, arrasando as plantações e levando os sobreviventes presos, uns para os Estados Unidos, e abandonando outros, em grande miséria, na costa deserta do Uruguai. Destruído o estabelecimento argentino, a Inglaterra tomou conta das ilhas.

O governo argentino em 1839 reclamou satisfação.

E o que lhe respondeu o governo americano pela palavra do secretário de Estado Daniel Webster?

Que o governo americano aguardava a decisão final do conflito existente entre a Inglaterra e a República Argentina a respeito da soberania das ilhas Malvinas.

Ora, em 1831, por ocasião do atentado americano nas Malvinas, a soberania argentina existia de direito e de fato sobre as Malvinas. De direito, reconheceram-no os mesmos Estados Unidos, porque na mensagem presidencial de 17 de novembro de 1818 referente à independência das antigas províncias unidas do Rio da Prata atribuía-se-lhe a soberania dentro dos limites do antigo vice-reinado de Buenos Aires, que compreendia as Malvinas; de fato, eram argentinas as Malvinas, porque eram colonizadas por argentinos e administradas por autoridades argentinas desde 1829; só dois anos depois é que a Inglaterra se apossou dessas ilhas.

Como é que os Estados Unidos de quem tantas vezes tem-se dito que não consentirão que um país europeu se aposse de uma polegada de território americano, não duvidaram, no caso presente, pôr em dúvida a soberania argentina nas Malvinas em conflito com a usurpação inglesa?

E a República Argentina em 1884 renovando a sua reclamação obteve a mesma resposta. Propôs submeter o caso a arbitramento; o governo de Washington negou-se.

Eis aí a sinceridade americana quando fala na doutrina de Monroe e sustenta a teoria do arbitramento para a solução dos conflitos internacionais.

Mais tarde e no Honduras, alargou a Inglaterra impunemente os seus domínios sem que saísse a campo a tal doutrina, e quando Schomburgh intrometeu-se em território brasileiro na lagoa dos Piraras, na fronteira inglesa, retirou-se diante da energia da diplomacia brasileira, que nessa ocasião não encontrou e altiva nem pediu então o menor apoio de Washington, apesar de Monroe e da sua doutrina.

[NOTA: O conflito da lagoa dos Piraras, ou “Questão do Pirara”, entre o Brasil e a Inglaterra, estendeu-se de 1835 a 1904, com a invasão dos ingleses sobre parte do atual Estado de Roraima, a partir da Guiana].

Publicado no Jornal Hora do Povo edição 3.046

 

 
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