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25/05/2012 | Roberto Gurgel ignorou os crimes de Demóstenes-Cachoeira

 Ou é muito distraído ou muito cínico

Gurgel diz à CPMI que engavetou a Vegas por não ter visto crime algum

Associação criminosa entre Demóstenes e o Cachoeira já estava mais do que evidente

Em resposta à CPMI, procurador-geral disse que só achou “problemas éticos” na relação criminosa do senador com o contraventor

A explicação do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, aos membros da CPMI do Cachoeira, sobre por que engavetou as denúncias contidas no Inquérito nº 042/2008, fruto da Operação Vegas da Polícia Federal, não consegue convencer nem o mais ingênuo dos parlamentares. Ele alega que, após receber o relatório a Operação Vegas, em 15 de setembro de 2009, decidiu pelo sobrestamento (parar, sustar) - leia-se engavetamento - por considerar que as relações do senador Demóstenes Torres com a quadrilha de Carlinhos Cachoeira, identificadas pelos policiais federais, “não adentravam a seara penal, situando-se, ainda no campo ético”.

Ora. Já faziam parte do relatório da PF vários diálogos extremamente comprometedores envolvendo Demóstenes e Cachoeira, mas Gurgel não viu nada de mais neles. Julguem vocês mesmos, caros leitores, por exemplo, se esse trecho da conversa entre Demóstenes e Cachoeira, colhido pela Operação Vegas em 22 de abril de 2009, não está, como ele diz, adentrado na seara penal. Cachoeira pede a Demóstenes que levante o andamento de um projeto de lei. Chama Demóstenes de “doutor” e fala como se desse uma ordem: “Anota uma lei aí. Você podia dar uma olhada. Ela tá na Câmara: 7.228/2002. PL [projeto de lei]”.

O projeto em questão fora apresentado em 2002. Tratava de assuntos relacionados aos jogos de azar. Assunto de interesse direto da quadrilha de Cachoeira. Demóstenes aceita a missão: “Fala Professor”, diz ele dirigindo-se ao criminoso. “Vou levantar agora e te ligo depois”, respondeu. Decorridos dois dias, Demóstenes informou ao chefe da quadrilha: “Vou mandar o texto procê. O que tá aprovado lá é o seguinte: ‘transforma em crime qualquer jogo que não tenha autorização’. Então, inclusive, te pega, né?”, alertou. “Vou mandar o texto pra você. Se você quiser votar, tudo bem, eu vou atrás. Agora a única coisa que tem é criminalização, transforma de contravenção em crime, não regulariza nada”. Cachoeira, parecendo conhecer bem o projeto, responde: “Não, regulariza, sim, uai(...)”.

Considerar uma relação desse tipo, de um senador da República alertando um chefe de quadrilha que ele pode “ser pego”, como situando-se “apenas no campo ético”, sem ter “adentrado na seara penal” é, no mínimo uma piada de mau gosto da parte do procurador-geral. Demóstenes aparece dando um toque para um bandido com a frase “desse jeito eles te pegam” e o procurador não achou nada estranho. Não dá para entender. Se ele achou que não tinha nada de comprometedor nesta fala, tinha que arquivar o processo. Não fez. Se tivesse dúvidas, ele podia pedir novas diligências à PF para esclarecê-las, mas Gurgel pareceu não ter dúvida. Também não pediu isso. Deixou a quadrilha agindo solta por mais de um ano sem investigações.

Mas a coisa não parou por aí. Vejam mais esse outro diálogo bastante suspeito, captado em 4 de abril de 2009, sobre contratos de informática na Infraero. O senador diz a Cachoeira: “O negócio da Infraero, conversei com a pessoa que teve lá. Disse o seguinte: o nosso amigo marcou um encontro com ele em uma padaria, não sei o quê. E levou o ex-presidente [José Carlos Pereira, da Infraero], cê entendeu? E que aí o trem lá não andou nada. Eles nem sabem o que tá acontecendo”. Cachoeira responde que o negócio exige a interferência direta de Demóstenes, sem intermediários: “Mas tem que ser você mesmo. Você que precisava ligar para ele”.

A julgar pelo que disse mais tarde o brigadeiro José Carlos Pereira, ex-presidente da Infraero, Demóstenes seguiu à risca as ordens dadas por Cachoeira. “Houve uma época, durante a CPI [do Caos Aéreo], eu senti que o Demóstenes poderia estar interessado em assuntos muito internos da Infraero, principalmente ligados à área de informática. E eu cortei na raiz. Eram licitações”, lembrou o brigadeiro.

Como se isso não fosse mais do que suficiente para se iniciar imediatamente um processo de investigação no STF, o procurador resolveu inventar uma outra história absurda, de que sua decisão foi tomada para não atrapalhar “a continuidade das investigações”. E que ela se mostrou correta por isso. Só que não havia continuidade de investigação nenhuma em pauta. Ele não pediu para abrir investigação alguma depois que engavetou Vegas. Ficou sentado em cima das denúncias por mais de um ano. Se dependesse apenas de Gurgel, não haveria investigação contra Demóstenes nem contra Cachoeira. Ela surgiu por iniciativa de outras instâncias.

SÉRGIO CRUZ

QUANDO VAZARAM OS DELITOS DE DEMÓSTENES, PROCURADOR TIROU A DENÚNCIA DA GAVETA ESBAFORIDO

A esposa do procurador, a sub-procuradora Claudia Sampaio chegou até a alegar que a própria Polícia Federal teria pedido para que a PGR não enviasse o relatório para o STF. Mas essa versão foi desmoralizada no mesmo dia em quem foi inventada. Em nota oficial, a PF desmentiu a versão da sub-procuradora. A investigação só ressurgiu um ano depois, não por decisão de Gurgel, mas por decisão da justiça do município de Val Paraíso, em Goiás, em setembro de 2010.

O fato é que Gurgel, pego de surpresa em 2012 pelos vazamentos, decidiu enviar rapidamente o relatório com as provas contra Demóstenes. Ele fez isso na correria porque toda a sociedade já sabia de tudo. Não dava mais para esconder. Gurgel recebeu em 9 de março de 2012 o documento resultado da Operação Monte Carlo. Diz ele que em 27 de março, ou seja 19 dias após receber o documento, enviou seu parecer para o STF. Sem dúvida, ele teve esse comportamento mais célere agora, não porque ele quisesse, mas porque já era de conhecimento público os ilícitos do senador Demóstenes. Não dava mais para manter a coisa engavetada.

A CPMI, certamente, não vai se contentar com essas explicações fajutas do procurador. Ela deverá continuar cobrando explicações mais sérias da parte da PGR sobre esse seu estranho comportamento. Deve continuar a cobrar porque Gurgel decidiu acobertar por tanto tempo uma relação criminosa que ele mesmo achou “promíscua” entre um senador da República e um chefe da quadrilha.

 Publicado no Jornal Hora do Povo, edição 3.059

 
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