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20/06/2012 | Financiamentos do BNDES para médias empresas caem 12,1%

Multinacionais levaram 70,58% dos empréstimos acima de R$ 100 milhões destinados à indústria

De janeiro a abril de 2011, os financiamentos do BNDES para o setor industrial somaram R$ 10,5 bilhões. Já este ano, no mesmo período, esses financiamentos montaram a R$ 9,4 bilhões. Portanto, houve uma queda de -10,5%.

Na mesma comparação, o montante destinado às médias empresas, contingente mais importante das empresas nacionais, caiu 12,1% (de R$ 3,9 bilhões para R$ 3,4 bilhões) e o financiamento para as micro e pequenas empresas caiu 6,7% (de R$ 8,4 bilhões para R$ 7,8 bilhões).

Lembremos que os financiamentos do BNDES já haviam caído 18% de 2010 para 2011 – e os da área industrial caíram 19% (ver HP, 20/01/2012). Portanto, a queda de -10,5% nos financiamentos do BNDES para a área industrial, no primeiro quadrimestre de 2012, se dá em cima de outra queda, -19%, de 2010 para 2011”).

Diante de quedas em cima de quedas nos financiamentos da única fonte que os empresários nacionais (além de seus recursos próprios) dispõem para investimentos, é compreensível porque, mesmo com os juros básicos em queda, a economia não se levanta. Sem financiamento público, o investimento não pode subir. Com o consumo amarrado por uma contenção salarial, o resto é o que se poderia esperar. Não se pode crescer, se a política econômica, apesar da redução nos juros básicos e de uma certa correção no câmbio, ainda é a de segurar e até mesmo derrubar o crescimento.

Não temos, ainda, as empresas que receberam financiamentos do BNDES no primeiro quadrimestre deste ano. Mas o banco já informou – o que é sempre um ponto positivo – quais as empresas que receberam financiamentos em 2011. Vamos nos concentrar naqueles financiamentos mais importantes da área industrial - aqueles iguais ou maiores do que R$ 100 milhões:

1)         O maior financiamento do BNDES em 2011, na área industrial, foi para a Vivo, pertencente à Telefónica de Espanha: R$ 3.031.110.000 (três bilhões, 31 milhões e 110 mil reais).

2)         O segundo maior financiamento nessa área, R$ 1.914.069.218 (um bilhão, 914 milhões, 69 mil e 218 reais), também foi para uma multinacional: a AMBEV, desnacionalizada há oito anos.

3)         O terceiro maior financiamento na área industrial foi para a FIAT: R$ 1.299.537.000 (um bilhão, 299 milhões e 537 mil reais).

4)         O quarto maior, também foi para uma empresa estrangeira: a GVT (Global Village Telecom), que levou R$ 1.184.107.000 (um bilhão,  184 milhões e 107 mil reais).

Nenhuma outra empresa recebeu, em 2011, na área industrial, um financiamento que chegasse a R$ 1 bilhão. Todas as empresas que conseguiram superar essa marca foram multinacionais.

Para resumir o resto: nos empréstimos do BNDES acima de R$ 100 milhões na área industrial, num total de R$ 12.917.728.548 (12 bilhões, 917 milhões, 728 mil e 548 reais), as multinacionais foram contempladas com R$ 9.118.324.318 (nove bilhões, 118 milhões, 324 mil e 318 reais), isto é, as multinacionais levaram 70,58% do valor destinado pelo BNDES aos financiamentos acima de R$ 100 milhões, na área industrial.

Sucintamente, os grupos beneficiados, além dos já mencionados, foram:

1)         O Tereos, monopólio francês do etanol e do açúcar pegou no BNDES R$ 723.186.000 (723 milhões e 186 mil reais), através de três empresas: Guarani (R$ 446.675.000), Companhia Energética São José (R$ 165.147.000) e Usina Vertente (R$ 111.364.000).

2)         A Pirelli levou R$ 442.765.100 (442 milhões, 765 mil e 100 reais).

3)         O Noble, monopólio inglês do agronegócio sediado em Hong Kong, foi contemplado com um empréstimo de R$ 409.012.000 (409 milhões e 12 mil reais).

4)         A Rhodia, hoje pertencente ao Grupo Solvay, sediado na Bélgica, pegou R$ 114.538.000 (114 milhões e 538 mil reais), através da Cogeracão de Energia Elétrica Paraíso.

Apenas para não provocar polêmicas inúteis, não colocamos o GP Investments como empresa estrangeira – embora dificilmente se pode chamar de nacional a esse grupo de especuladores.

O GP Investments, em 2011, levou R$ 1.874.443.350 (um bilhão, 874 milhões, 443 mil e 350 reais) do BNDES, através das Lojas Americanas (R$ 734.748.000 – para o BNDES as Lojas Americanas estão na área industrial), da LBR (R$ 704.431.350) e de uma subsidiária das Americanas, a B2W Companhia Global do Varejo (R$ 435.264.000).

Mesmo sem contar o  GP Investments, as multinacionais ficaram, ressaltamos, com 70,58% do total dos empréstimos acima de R$ 100 milhões do BNDES, destinados à área industrial.

O que resumimos até agora pode ser encontrado nos relatórios do BNDES: “Boletim de Desempenho, 30/04/2012”, “Desembolso do Sistema BNDES – MPME, janeiro-abril 2012”, “Desempenho Setorial do BNDES, 30/04/2012” e “Contratações da área industrial (operações diretas) 01/01/2011 a 31/12/2011”.

Trata-se, também sinteticamente, de jogar dinheiro fora – dinheiro do Tesouro e dos trabalhadores, principais fontes do BNDES. O que vão fazer as filiais de multinacionais com esse dinheiro? Obviamente, enviá-lo para suas matrizes.

Até porque elas não precisam – e não querem – fazer investimentos, exceto aquele mínimo sem o qual uma empresa não existe, pois funcionam com insumos e componentes importados. Não é apenas a questão de que multinacionais não existem para investir no país dos outros, mas para explorar o seu mercado e a sua mão de obra, enviando lucros e importando da matriz, ou de outra seção da mesma empresa, os insumos e bens intermediários, isto é, os componentes que utiliza.

Estruturalmente, seu investimento é o mais baixo possível – mais baixo que empresas nacionais que estivessem em seu lugar, pois as filiais de multinacionais não desenvolvem tecnologia, porque são montadoras de componentes importados; e também não investem para dar um salto na produção, porque sua meta não é vender barato para o conjunto da população, mas vender caro para uma faixa estreita, mais favorecida: elas são monopólios. O exemplo do etanol, onde as multinacionais, ao comprarem usinas brasileiras, paralisaram a expansão até então vertiginosa do setor – inclusive, intencionalmente para elevar os preços – é recente demais para que nós tenhamos de fazer outros comentários.

A política atual do BNDES favorece, portanto, o setor que tende a estagnar o crescimento. Sonegar recursos às empresas nacionais, desviá-los para monopólios estrangeiros, sobretudo quando as matrizes destes estão em crise, é uma excelente forma de contribuir para o atraso do país e rebaixar (ou liquidar) o crescimento. O que, aliás, o sr. Luciano Coutinho, presidente do BNDES, demonstrou bastante bem no passado. Uma pena que tenha esquecido. 

Diz a nota do BNDES que o resultado do quadrimestre é fenomenal, porque “consultas crescem 37% no primeiro quadrimestre do ano”.

O sr. Coutinho já fez coisa muito melhor na vida que tratar o público como se fosse uma plêiade de imbecis – apresentar as consultas dos empresários em busca de empréstimos do BNDES como um resultado do banco (e altamente positivo!?) está em um nível que, realmente, não esperávamos dele.

Principalmente quando o próprio BNDES nos informa que, entre janeiro e abril, houve “consultas” (isto é, pedidos de financiamento) no valor de R$ 73,841 bilhões, mas só foram aprovados R$ 34,223 bilhões (-28% que no ano passado). Aumentaram os pedidos dos empresários em 37%, mas as aprovações caíram 28% e os desembolsos totais (não somente para a indústria) só cresceram 1% (mais exatamente: 0,8% - cf. “Boletim de Desempenho, 30/04/2012”, item 2, “fases da operação”, pág. 1).

O sr. Coutinho, no entanto, deixou de se preocupar com essas coisas, isto é, com a realidade. Por exemplo, depois de, muito justamente, criticar o crescimento estupidamente baixo durante o governo Fernando Henrique, há algumas semanas, quando saiu o resultado do PIB, declarou: “O crescimento de 2,7% do PIB em 2011 foi muito significativo para o país (…). O resultado colocou o Brasil na sexta posição na economia mundial (…) assegurando mais avanços na inclusão”.

Se ele fosse um botocudo (com todo respeito aos índios), ainda ia. Mas ele não é.

CARLOS LOPES

 

 
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