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26/06/2012 | BC celebra economia parada por reduzir déficit nas contas externas

De janeiro a maio, remessas para exterior foram de US$ 28,4 bilhões, principalmente através de lucros

Após a divulgação do resultado de maio das contas externas pelo Banco Central (BC), na sexta-feira, os jornais saíram com títulos sobre a revisão (para baixo) no déficit previsto para este ano nas transações correntes (compostas basicamente pelo saldo comercial menos as remessas de dinheiro para o exterior). Como nós gostaríamos muito que isso se realizasse, fomos ver qual a base para tanto otimismo.

Infelizmente, é daquelas coisas que provocam uma irresistível necessidade de rir: a base era a declaração de um funcionário do BC de que a perspectiva era “favorável” (sic) porque “a moderação do nível de atividade econômica afeta o desempenho das empresas, portanto o acúmulo de lucros”.

Traduzindo: com a estagnação ou retrocesso da economia, as multinacionais vão lucrar menos, logo terão menos lucros a enviar para suas matrizes; portanto, as remessas de lucros serão menores por falta de lucros a remeter - e o déficit nas contas externas será menor.

O único problema é que, se o déficit diminuir por esse motivo, estamos lascados. Portanto, trata-se de um otimismo de palhaços amadores.

Em maio, a brilhante política do sr. Mantega de cobrir o rombo nas contas externas com dinheiro estrangeiro deu com os burros n'água: a entrada líquida de dinheiro externo foi US$ 3,84 bilhões contra remessas para o exterior de US$ 6,7 bilhões. O que salvou foi o saldo comercial, quase US$ 3 bilhões.

No entanto, é uma situação instável: de janeiro a maio, foram enviados, do Brasil para fora, US$ 28,4 bilhões. Menos que os US$ 32 bilhões remetidos no mesmo período do ano passado – mas, convenhamos, uma diferença de US$ 3,6 bilhões não altera em nada o quadro.

Porém, de janeiro até a quarta semana de junho, o saldo comercial caiu 48,7% (cf. nota do MDIC/Secex/Depla, 25/06/2012), devido à queda no valor das exportações (-16,5% em junho, em relação ao mesmo mês de 2011 e -10,5% em relação ao mês anterior). Comparado a 2011, caiu o valor das exportações de manufaturados (-19,8%), dos semimanufaturados (-27,2%) e dos produtos primários (-11%), isto é, das commodities, que vinham, ao modo da República Velha, sustentando o comércio exterior.

Como dise o vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro: “O preço médio da tonelada do minério de ferro caiu para US$ 100 a tonelada, contra média de US$ 136 ano passado. E no segundo semestre param as exportações de soja”. O minério e a soja somaram 36% das exportações em junho.

As importações, ao contrário, continuam aumentando, ainda que em ritmo menor (como diria o funcionário do BC, devido à “moderação do nível de atividade econômica”). A desnacionalização extensa da economia tem dois efeitos: primeiro, as multinacionais passam a importar os componentes para a montagem que suas filiais fazem no país – e, em vários segmentos passaram a importar o produto pronto, isto é, passaram da indústria ao comércio.

É uma ideia ingênua – para usar uma palavra educada – a de que a substituição de empresas nacionais por empresas estrangeiras (ou, para ser preciso, colocar as últimas como principal setor da economia) não implica numa mudança no caráter da própria economia. Ao contrário, as multinacionais não vão fazer a mesma coisa que antes faziam as empresas nacionais. O motivo - que parece simplório, mas é exato - é que elas fazem parte de outra economia nacional. Daí o seu cunho importador da matriz e remetedor  de lucros para a matriz, o que sangra de duas maneiras a nossa economia, que torna-se um banco de sangue cativo para outras economias.

É isso o que explica os ciclópicos (tão grandes quanto resultado de uma visão caolha) US$ 226 bilhões de importações em 2011, assim como os US$ 85,2 bilhões de remessas para fora do país no mesmo ano, a maior parte remessas de lucros.

O segundo efeito é que há empresas nacionais, realmente, sem alternativa, pois a desnacionalização em vários setores arrasou a indústria de componentes no Brasil. Assim, também elas são obrigadas a importar – o que é meio caminho para a desnacionalização.

Infelizmente, não é só isso, ainda que seja o principal. Em recente entrevista, o presidente da Associação Brasileira de Fabricantes de Brinquedos (Abrinq), Synésio Batista da Costa, relata as dificuldades de um setor que é diretamente atingido por importações do produto final:

No ano passado detínhamos [a indústria nacional] 60% do mercado no início do ano, e terminamos com 30%. O dólar tirou qualquer condição de competição. O mercado cresceu 15%. Como os produtores nacionais cresceram apenas 9%, perdemos participação. A queda para apenas 30% de 'market share' aconteceu em apenas seis meses, entre julho e dezembro. Na União Europeia as vendas caíram 2,5% no ano passado. Nos Estados Unidos, 1,2%. No Japão estagnou. Onde colocar o monte de brinquedos que foram fabricados e pararam nos estoques? O que fazer quando chega dezembro e eles ficam velhos? Na América Latina, onde tem 100 milhões de crianças” (Brasil Econômico, 18/06/2012).

O presidente da Abrinq frisa que a indústria nacional, no ramo, é uma das mais inovadoras do mundo. Devido às suas características (“brinquedo não é uma indústria montadora. 70% do brinquedo tem que ser feito na linha de produção”), três de cada quatro brinquedos saem da fábrica custando no máximo R$ 22. No Brasil, não adianta querer vender brinquedo de R$ 200 para a população inteira que não vai dar certo. Além disso, só conseguimos vender brinquedos para 35 milhões de crianças entre as 55 milhões que a gente tem. Essas 20 milhões não têm acesso nem a brinquedos de R$ 1,99”.

Extremamente aguda é a descrição que o empresário faz do que aconteceu com a política tucana de juros altos, hipervalorização cambial, privilégio das importações e das multinacionais:

O primeiro grande ataque à indústria do brinquedo aconteceu em 1995, quando detínhamos 90% do mercado. Fechamos 636 fábricas e demitimos 18 mil pessoas. No final do ano, caímos para 38% de participação de mercado”.

O empresário não se referiu, mas há outra ameaça no ar: no dia 02/03 foi anunciado que o Carlyle Group, um dos maiores fundos de Wall Street, adquirira uma das principais redes de venda de brinquedos do Brasil, a Ri Happy. No dia 25 deste mês, a Ri Happy – ou seja, o Carlyle Group – adquiriu outra das maiores redes do comércio de brinquedos, a PBKids, e falava-se na aquisição da Preçolândia. As três estão entre as seis maiores vendedoras de brinquedos do país. Não é difícil perceber, na mão do Carlyle (que no Brasil já adquiriu a agência de turismo CVC e a empresa de planos de saúde Qualicorp, que em seguida comprou uma congênere, o Grupo Afinidade), que brinquedos essas redes vão vender.

CARLOS LOPES

 

 
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