Você está em: Home >> Notícias >> Tarso Genro: “Em dois anos, já construímos uma marca de governo”
 
- Procurar Notícias  
 
 
 
Créditos:Ramiro Furquim/Sul21
03/01/2013 | Tarso Genro: “Em dois anos, já construímos uma marca de governo”

Publicamos abaixo a íntegra da entrevista que o Governador do Estado do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, concedeu ao Sul21. O texto foi ao ar no sítio www.sul21.com.br no dia 31/12 do ano anterior.

Samir Oliveira

Chegando à metade de seu mandato como governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro acredita ter bons motivos para comemorar. “Recebemos um estado endividado, com salários arrochados, sem articulação com o governo federal e sem espaço fiscal. Conseguimos reverter tudo isso”, anima-se, realçando a retomada de parcerias com o governo federal, a adoção de políticas sociais e as melhoras salariais do funcionalismo como conquistas atingidas pelo estado nos dois primeiros anos de governo. Ações que, segundo o governador, apontam caminhos positivos para a continuidade de seu mandato e até para uma eventual reeleição em 2014. “Estou otimista e acho que teremos mais quatro anos de Unidade Popular Pelo Rio Grande”, afirma.

Em uma longa conversa com o Sul21, ocorrida no último dia 26, Tarso Genro não limitou-se a discutir aspectos de seu governo, fazendo também uma análise da conjuntura política do Rio Grande do Sul – sem se furtar de discutir questões ideológicas envolvendo o próprio PT. “O partido precisa entender que não vai ser sempre cabeça de chapa”, afirmou Tarso, reforçando que falta ao PT “uma visão de esquerda mais generosa em relação a nossos parceiros e mais dura em relação a nós mesmos”. Vendo a oposição a seu governo como “organizada, mas minoritária”, Tarso Genro defendeu também a reaproximação do PT com movimentos dos trabalhadores – o que passa, segundo ele, por uma discussão ideológica mais acentuada junto a partidos como PSOL e PSTU, que estariam ocupando o espaço dos petistas junto aos sindicatos.

Para facilitar a leitura, a entrevista de Tarso Genro ao Sul21 está dividida em duas partes. Na primeira, que reproduzimos a seguir, o governador gaúcho descreve as ações adotadas para que o estado retomasse os investimentos e o crescimento econômico. Além disso, discute o novo modelo de pedágios, a dívida com a União, a construção da ERS-010 e as polêmicas envolvendo o pagamento do piso do magistério – com direito a duras críticas ao CPERS e à líder do sindicato, Rejane de Oliveira. “Ela disse que o governo Yeda já foi derrotado e que agora é necessário derrotar o governo Tarso. Onde fica a questão educacional?”, ataca.

Ao final da primeira parte, está disponível o link que conduz à continuação da entrevista.

Sul21 – Quando assumiu o governo, o senhor disse que os cofres públicos estavam raspados. Dois anos depois, como está a situação das finanças estaduais?
Tarso Genro - 
A situação estrutural das finanças do estado permanece a mesma. O Rio Grande do Sul vive uma crise financeira que é idêntica à ampla maioria dos estados brasileiros, em função da forma como foram negociadas suas dívidas durante o governo Fernando Henrique Cardoso. A questão que se colocava para nós, no início do governo, era como enfrentar essa crise estrutural. Optamos por três movimentos muito claros. Primeiro, abrir espaços fiscais para obter novos financiamentos. Segundo, usar os recursos da arrecadação direta do estado para melhorar o salário dos funcionários públicos e melhorar a organização dos serviços prestados. E, por fim, estabelecer uma nova relação com o governo federal e obter vultosos recursos da União para investimentos. Tudo isso foi feito, portanto a situação financeira está sob controle. Concedemos aumento de 76,7% para os professores e reorganizamos carreiras, com reajustes para a Brigada Militar e a Polícia Civil. E obtivemos recursos com o BNDES, o Bird, o Banco Mundial e o Orçamento Geral da União.

Sul21 – O Rio Grande do Sul possui uma dívida de R$ 38 bilhões com o governo federal. Não é arriscado ampliar o endividamento do estado com empréstimos junto a bancos nacionais e internacionais?
Tarso – 
Se enfrentamos a situação dentro das normas da responsabilidade fiscal e com avais dados pela União, enfrentamos a crise junto com o governo federal. O aval da União para os empréstimos não é meramente político. É uma garantia financeira. Portanto, não há a possibilidade de não pagamento. Estabelecemos uma intimidade política e financeira maior com o governo federal e isso o coloca, também, como responsável pelo desenvolvimento do estado. A estratégia que adotamos é de responsabilidade social e econômica. A estratégia adotada pelo governo anterior era apenas com a aparência de saneamento financeiro. Recebemos um estado endividado, quebrado, com salários arrochados, sem nenhuma articulação com o governo federal e sem espaço fiscal. Conseguimos reverter tudo isso.

Sul21 – Desde o início do governo, o senhor vem manifestando expectativas de que a presidente Dilma Rousseff renegocie a dívida dos estados com a União. Afinal, essa repactuação sairá do papel?
Tarso – 
Tivemos dois avanços extraordinários em relação à dívida com a União. Primeiro, recebemos R$ 785 milhões para uso praticamente livre para ajudar a arrolar a dívida. Em segundo lugar, já foi afirmado pela presidente e pelo ministro Guido Mantega que teremos o rebaixamento dos juros e a eliminação do estoque da dívida em 2027. Portanto, a longuíssimo prazo, essa questão está organizada. Precisamos reduzir as prestações pagas pelo estado (que são de 13% da receita ao ano) para que possamos utilizar esses recursos (mais de R$ 2 bilhões) em investimentos. Mas isso a União terá que avaliar, tendo em vista as perspectivas macroeconômicas e financeiras do país. Esse será o próximo passo das negociações. Isso precisa ser equacionado de forma ponderada, como tem feito a presidente Dilma, pois a dívida dos estados com a União depende de uma relação do governo federal com o mercado financeiro mundial.

Sul21 – Como estão sendo aplicados os recursos que o estado vem captando mediante empréstimos?
Tarso – 
Trata-se de um conjunto de recursos que vêm do BNDES, do Banco Mundial e do Bird para investimentos em organização da estrutura tecnológica do estado, em melhoria do desempenho técnico da Fazenda e qualificação dos serviços públicos. Esses valores também são investidos em reconstrução, melhoria e recapeamento de estradas. O limite de recursos que o estado tem para investir chega a R$ 10 bilhões nos próximos quatro anos. Além disso, obtivemos uma soma espetacular de investimentos da iniciativa privada, como a duplicação da fábrica da Companhia Celulose Riograndense, que é o maior investimento privado da história do Rio Grande do Sul. O estado está em uma condição privilegiada para crescer e as finanças estão sob controle. Adotamos estratégias diferentes das do governo passado, que queria um déficit contábil zero e apostou em um estado letárgico. A única forma de sair da crise é crescendo.

Sul21 – O Rio Grande do Sul já travou, em um passado recente, um intenso debate sobre a viabilidade da monocultura de eucaliptos enquanto um investimento econômica e ambientalmente positivo ao estado. Na sua avaliação, a duplicação da Celulose Riograndense não traz malefícios ao estado?
Tarso – 
Não, pois o estado não realizou nenhuma alteração na legislação ambiental e nas regras para o zoneamento agrícola para atrair esse investimento. Nem se previu qualquer tipo de estímulo ao plantio de eucaliptos, para além do que já existia. Esse investimento é bem vindo e não haverá nenhum tipo de concessão anti-ambientalista por parte do estado. A empresa estava discutindo se implantava outra fábrica em outra região do país ou se duplicava sua produção no Rio Grande do Sul. Essa dúvida foi sanada através de um estudo técnico, financeiro e econômico que fizeram e que encontrou a mesma receptividade em todos os lugares do Brasil. O que desequilibrou em favor do Rio Grande do Sul foi o ambiente político, a composição de um governo de maioria, a estabilidade institucional, a confiabilidade no governo e, evidentemente, os incentivos fiscais que já existiam e que foram ampliados para outros tipo de empresas.

Sul21 – O senhor reformulou a política de isenções fiscais a empresas através do Fundopem. A sua avaliação é que esses incentivos gerarão recursos ao estado a médio prazo?

Tarso – Com a reorganização técnica e institucional da Fazenda pública e com a atração de investimentos feita pelo Fundopem, conseguimos arrecadar 10% a mais neste ano. Fizemos um rebaixamento dos impostos para equilibrar o desenvolvimento econômico, que era centrado exclusivamente na visão: “Sigam as montadoras e todos seremos felizes”. Nossa visão é, sim, manter e até atrair mais montadoras de automóveis ao estado. Mas não é possível apostarmos o desenvolvimento do Rio Grande do Sul apenas nessa possibilidade. Temos capacidade de manter uma base produtiva desenvolvida através da combinação entre agroecologia e agroindústria e do fortalecimento da agricultura familiar e do estímulo à produção agropecuária tradicional.

Sul21 – Os contratos de pedágio se encerram no ano que vem. Como será a atuação da Empresa Gaúcha de Rodovias (EGR) na manutenção das praças?
Tarso - 
A EGR compõe um conjunto de atos preparatórios que realizamos para cumprir nosso programa de governo. Iremos encerrar o polo de Farroupilha, baratear os pedágios e manter e melhorar a qualidade dos serviços. Vamos acionar um conjunto de comitês de controle dos pedágios e do uso de seus recursos, que não serão contabilizados no caixa único do governo.

Sul21 – E como está a discussão sobre um novo modelo de pedagiamento?
Tarso – 
Primeiro, precisamos nos apropriar do que está funcionando e não permitir que haja uma ruptura na prestação do serviço. Implantaremos o modelo comunitário, com controle público. Essa é a missão da EGR. O conjunto da modelagem implica também as estradas federais, por isso iniciamos uma conversação com a União para saber que destino ela dará às suas estradas. A partir daí, iremos trabalhar paulatinamente uma modelagem que prestigie o modelo comunitário.

Sul21 – O governo estuda realizar novas concessões de praças e polos à iniciativa privada?
Tarso - 
O modelo adotado será naturalmente contaminado, no bom sentido, por aquilo que for decidido pelo governo federal. Iremos articular de maneira institucional a compatibilização entre o modelo comunitário e o modelo de polos que o governo federal quiser implementar. Seria uma precipitação da nossa parte impor ao governo federal um modelo. Mas já conversei bastante com o ministro dos Transportes e a visão dele vai no mesmo caminho que a nossa: baixar o valor das tarifas e melhorar os serviços.

Sul21 – Quando esse modelo estiver operando e a EGR já tiver cumprido sua função inicial de assumir as praças cujos contratos vencem em 2013, a empresa seguirá existindo?

Tarso – A EGR irá atuar de maneira permanente nas praças que serão retomadas. A empresa irá, inclusive, contratar serviços privados em setores especializados. A EGR irá operar os serviços necessários para o funcionamento das praças, como capeamentos, sinalização e capinas. A diferença é que esse serviço será controlado por uma empresa estatal, que está sob controle dos cidadãos.

Sul21 – O senhor assumiu o governo com um projeto pronto para a construção da ERS-010. Por que, até hoje, a obra ainda não saiu do papel?
Tarso – 
Paira sobre essa questão um conjunto de informações completamente manipuladas, como se o governo estivesse estabelecendo uma controvérsia com a Odebrecht (empresa que realizou o projeto). A Odebrecht é uma empresa de relevância internacional que presta serviços importantíssimos para o país. Mas é uma empresa privada e sua destinação é o lucro. Se não fosse assim, não seria uma empresa competente. O estado precisa analisar esse projeto e verificar se ele gera lucro social, se aquilo que iremos gastar se traduzirá em um conjunto de bons serviços para a população. Dois pontos devem ser muito bem pensados. O custo das desapropriações estava previsto em R$ 150 milhões. O governo não tem esse dinheiro e acreditamos que o custo será muito maior. Em segundo lugar, o projeto trazia a obrigação de que o estado completasse pagamentos à empresa caso o movimento da estrada não seja o previsto. Nós pagaríamos pelos carros que não passariam nos pedágios para permitir que a empresa tenha sua taxa de lucro previsível. São esses dois elementos que estamos trabalhando. Vamos dar essa resposta no momento adequado para a Odebrecht e para a sociedade. Essas empresas são muito poderosas e influenciam os meios de comunicação. Possuem pessoas para fazer seus editoriais, porque acham que a proposta da empresa é boa ou porque simpatizam com esse modelo. Mas o governo não tem obrigação de dar uma resposta no timing que a empresa e alguns jornalistas querem. Acredito que no início do ano teremos uma previsão firmada sobre isso e não excluiremos a Odebrecht da possibilidade de realizar um contrato conosco.

Sul21 – Sobre o piso do magistério, o senhor considera que está cumprindo sua promessa de campanha, que é de pagar integralmente o valor do piso até o final do governo?

Tarso – Na nossa visão, sim. Concedemos um aumento de 76,7% aos professores em quatro anos, o que não encontra paradigma na história do Rio Grande do Sul. Nenhum servidor do magistério recebe menos que o piso nacional do Fundeb. Essa medida beneficia 35 mil professores na ativa e aposentados. Em terceiro lugar, estamos aplicando um programa de investimento de R$ 1,25 bilhão na reforma de escolas. Recebemos a rede pública completamente quebrada. A Secretaria de Educação tem um diálogo permanente com o magistério.

Sul21 – Mas o clima entre o CPERS e o governo é de enfrentamento constante.
Tarso - 
Não se pode confundir a posição do grupo dirigente do CPERS com a posição da maioria do magistério. Recentemente, realizamos uma reunião com 5 mil professores na FIERGS. O secretário de Educação foi respeitado e aplaudido, porque o magistério, em seu conjunto, sabe que estamos realizando um trabalho sério. Atribuo as manifestações do CPERS à legítima movimentação do PSOL e do PSTU. Esses partidos, que controlam o sindicato, não estão interessados na discussão educacional, querem apenas desgastar um governo que não apoiam, o que é natural e respeitável em uma democracia. O resultado dessa linha política é uma tentativa de fazer a revolução socialista através do dissídio coletivo. Os resultados são visíveis nas últimas movimentações do CPERS, totalmente deslocadas da categoria. Isso não nos tira o respeito pela direção no CPERS, mas temos, sim, que travar uma batalha política com eles. Os professores do PT, do PDT e do PSB, que apoiam o governo e estão interessados na educação, precisam receber informações para fazer esse debate político.

Sul21 – O senhor disse que o CPERS é controlado pelo PSTU e pelo PSOL. Mas a presidência do sindicato é ocupada por Rejane de Oliveira, que é filiada ao PT. Ela conduz o CPERS em coalizão com esses dois partidos.
Tarso – 
Ela pode estar inscrita no PT, mas é um quadro do PSTU, todo mundo sabe. O discurso e as movimentações dela são do PSTU. O PT compõe, sim, o CPERS, mas os companheiros petistas que estão lá não aprovam esse tipo de atitude. Não estão vinculados a ações como levar sindicalistas para a frente da casa do deputado Edegar Pretto (PT). Os companheiros petistas que estão em sindicatos públicos têm o direito de lutar e até de xingar o governador. Mas outra coisa é adotar uma linha autoritária, separada de sua base de representação. A direção do CPERS está levando o sindicato a um cruel isolamento.

Sul21 – Na sua avaliação, o sindicato não quer discutir os problemas da educação gaúcha?
Tarso – 
Recentemente, em entrevista, a presidente do CPERS disse que o governo Yeda já foi derrotado e que agora é necessário derrotar o governo Tarso. Onde fica a questão educacional? A professora Rejane está completamente enganada. Falam como se estivessem lidando com patrões, o que é primitivo politicamente. No setor público, o patrão não é o governador ou o secretário da Educação. O patrão é o Estado. O Estado tem maioria na sociedade, portanto, o patrão dos professores é o povo gaúcho. É ao povo que eles têm que prestar contas. Os slogans ofensivos que eles utilizam e a radicalização verbal que adotam é muito característica de uma pequena burguesia radicalizada. Isso não nos atinge. A única coisa que lamento é que isso desgasta o sindicato.

Sul21 – O senhor e outros governadores ingressaram com uma ação no Supremo Tribunal Federal contra o reajuste do piso pelo Fundeb. O CPERS compara isso à ação que o governo Yeda protocolou contra o piso no STF.
Tarso – 
A estratégia do PSTU é dizer que o governo Lula fez o mesmo que o governo Fernando Henrique. Quem não possui a mesma visão que eles é sempre o inimigo. A pessoa só pode estar em uma estratosfera ideológica e em uma comoção psicológica que não possuem resposta para tratar os governos Lula e Dilma como neoliberais. Fico perplexo.

Sul21 – A lei do piso, como foi sancionada por Lula, é, de fato, impagável?
Tarso – 
O piso pelo Fundeb é impagável para todo mundo. A própria CNTE está fazendo uma proposta para que o reajuste não se baseie no Fundeb. Se for mantido como está, o piso do magistério será anulado, porque ninguém poderá pagá-lo. A manutenção do reajuste pelo Fundeb é a destruição do piso, porque levará prefeituras e estados a uma situação de absoluta impossibilidade, a menos que se corte todas as demais vantagens e se pague somente o piso. Se for assim, não tem problema, faço isso amanhã e pago imediatamente o piso. A proposta adequada e que tramitou no Congresso Nacional foi a de reajustar o piso pelo INPC. Essa foi a proposta enviada pelo governo Lula. Foi a minha proposta, como ministro da Justiça, e do Fernando Haddad, como ministro da Educação, e do Lula, como presidente. Ela só não foi aprovada porque, em momentos de pressão eleitoral, os partidos se preocupam com a pressão das corporações. Por isso aceitaram a proposta absurda do senador Cristóvão Buarque (PDT-DF), que está destruindo a possibilidade de os professores usufruírem desse direito conquistado.

Sul21 – Se o Congresso modificou a proposta de uma maneira que o senhor entende inadequada, por que, então, o presidente Lula a sancionou mesmo assim? Poderia ter vetado o reajuste pelo Fundeb.

Tarso - O presidente não vetou para não deixar o piso sem correção. Eu concordei com isso. Minha proposta e a do Fernando foi de que Lula não vetasse, porque iria parecer que o desejo do presidente era de que o piso fosse o mesmo para sempre. Sugerimos que o presidente mantivesse o texto modificado pelo Congresso e enviasse outro projeto de lei determinando a correção do piso pelo INPC. Foi isso que ele fez. Mas grande parte do PT e da base aliada fica com medo de votar esse projeto. Acham que seria algo contrário ao interesse das corporações e eleitoralmente ruim. É um erro grave e eu já disse isso a eles.

Sul21 – Sobre a segurança pública… Para além da questão material, da aquisição de viaturas e aumento de policiais na rua, gostaria de lhe perguntar: como o senhor vê a conduta repressiva da Brigada Militar? Recentemente, tivemos o episódio da repressão ao protesto em frente à prefeitura contra a privatização dos espaços públicos da cidade. O caso foi emblemático e obteve bastante espaço na mídia, mas sabemos que centenas de denúncias de violência policial ocorrem diariamente em vilas e favelas.
Tarso – 
Esse caso do Tatu-Bola também foi emblemático no sentido contrário. A Brigada Militar agiu mal. Agiu tecnicamente de maneira incorreta e teve atitudes repressivas completamente desmedidas. Eu diria até que foi caricata, em termos de autoritarismo. No outro dia, quando o comandante foi lá, se aplicou a linha do governo, que pressupõe diálogo, conversação e respeito aos dirigentes do movimento. Também havia uma meia dúzia que queria mesmo atacar a Brigada Militar. Isso é histórico, sempre tem os agitadores, que, inclusive, podem ser de extrema direita. A atitude do comandante do policiamento no Centro, orientado pelo secretário de Segurança, demonstrou eficiência. Tanto é que, posteriormente, se realizou reunião com os dirigentes do movimento para avaliarmos onde a Brigada Militar havia errado. Essa é a nossa conduta.

Sul21 – O senhor já recebeu o relatório feito pela Ouvidoria de Segurança Pública? O texto diz que foi a Brigada quem começou a repressão.
Tarso – 
Já recebi o trabalho da Ouvidoria e pedi para a minha assessoria superior preparar uma série de orientações, para que possamos tirar determinações daquela experiência e conduzi-las ao comandante da Brigada, para que esses fatos não se repitam. A segunda orientação é introduzir, na formação dos policiais, tanto civis quanto da Brigada, a questão dos direitos humanos. Em terceiro lugar, estamos iniciando um sistema de comunicação integrada com as famílias e com os jovens para mostrar que a Brigada Militar só poderá mudar na medida em que mudar também sua relação com a população, os movimentos e os jovens. Um  exemplo dessa mudança é a operação contra a alcoolemia no trânsito, a chamada Lei Seca, que tem dado grandes resultados. Trata-se de um conjunto de mudanças que inclui não só os meios através dos quais se combate as ações criminosas, mas a mudança da cultura das instituições.

Sul21 – Como o senhor avalia a relação do governo com a oposição? A oposição diz que o seu governo ainda não disse a que veio e não possui uma marca.
Tarso - 
Ao longo desses dois anos, já construímos uma marca de governo e é isso que está inquietando muito nossos adversários. Desenvolvimento econômico, combate às desigualdades regionais e sociais: todas as nossas políticas convergem para isso. A oposição no Rio Grande do Sul não tem unidade, então não é possível responder à oposição em bloco.

Sul21 – O que o senhor diria ao PP, por exemplo? O partido realizou um balanço negativo sobre o seu governo nos últimos dias.

Tarso – Para o PP, dizemos que somos favoráveis aos aumentos salariais para o funcionalismo e entendemos que isso faz parte da recomposição das funções públicas do estado. Se não apostarmos no ser humano, na sua autoestima e na sua capacidade, essas pessoas não irão produzir melhor. O PP critica o endividamento do estado. Estamos fazendo um endividamento dentro das margens fiscais permitidas pela lei e com o aval da União. Ao invés de nos separarmos da União, nós a estamos trazendo para dentro da nossa “crise”. Criticam que temos poucos investimentos no orçamento. É verdade. Mas chegamos aos 12% para a saúde, coisa que não se preocuparam em fazer. O PP nos critica porque defende o governo Yeda. Nós saudamos essa postura, porque é muito corajoso da parte do PP defender o governo Yeda, defender que não se tenha recursos para investir e que não se dê aumento aos servidores.

Sul21 – Tem sido dito que a oposição ao governo federal é quase inexistente. O senhor concorda com essa tese aqui no estado?

Tarso – A oposição aqui é organizada, mas é minoritária. Nos 300 projetos que aprovamos na Assembleia Legislativa, tentaram não votar, retirar o quórum e fazer obstrução parlamentar, algo que eles têm direito, mas não conseguiram fazer. A oposição faz um movimento para ser contra o aumento dos professores e depois, na hora de votar, vota a favor. É uma oposição que não tem uma cabeça muito lógica. Essas contradições têm desgastado a oposição nas suas bases. Hoje, todo o magistério sabe que a oposição se articulou com o PSOL e com o PSTU para tentar bloquear os aumentos que queríamos dar.

Sul21 – O PMDB gaúcho está agora sob a presidência do deputado estadual Edson Brum, que é um contundente opositor ao seu governo. Ao mesmo tempo, ele afirma que é preciso realizar uma aproximação com o PMDB nacional e busca uma aproximação com Dilma. Como o senhor avalia essa situação do PMDB gaúcho, que faz oposição a um governo estadual do PT, mas tem ministros no governo federal do PT?

Tarso – Fui eu quem, orientado pelo presidente Lula, organizou a coalizão política em seu governo. Foi a primeira vez que se falou em coalizão no Brasil. A presidente Dilma precisa manter o equilíbrio de relações com os partidos que lhe dão sustentação. Recentemente, inauguramos uma obra em Caxias do Sul. Lá estavam o ministro do PP e o prefeito José Ivo Sartori, do PMDB. Aqui, eles são nossos adversários. Lá, são aliados do governo federal. Precisamos saber conviver com isso e prestigiar e respeitar a presidente. A situação do PMDB no Rio Grande do Sul é permanentemente contraditória. O senador Pedro Simon, por exemplo, sempre teve o comportamento de organizar coalizões contra o PT em todas as circunstâncias, o que ele faz com a dignidade e capacidade política que lhe são próprias. Agora temos uma novidade no PMDB gaúcho, que é um presidente que se elege dizendo que quer que o PMDB no Rio Grande do Sul se manifeste como apoiador do governo da presidente Dilma. Se fizer isso, será uma realidade política que termos que estudar. Mas ele não pode fazer isso na ilusão de que a presidente Dilma apoie um candidato do PMDB ao governo estadual. Isso não irá ocorrer, já foi tentado com o presidente Lula quando eu era candidato e não deu certo. Dilma é integrante do PT e vai conduzir a sucessão no estado de acordo com a coerência partidária que sempre fez parte do seu governo.

Sul21 – Como o senhor avalia os movimentos que se processam no interior da sua base aliada, com PDT discutindo a possibilidade de lançar candidatura própria ao governo estadual?

Tarso – O que os partidos da base fazem em relação a 2014 não interfere em nada no nosso relacionamento. O compromisso que PDT e PTB têm conosco diz respeito a quatro anos de governo. Se eles quiserem ter outros candidatos na próxima eleição, podem ter. Nem por isso terão que sair do governo. Só sairão no momento que acharem política e eticamente adequado. São companheiros que estão prestando serviços inestimáveis ao governo e têm o direito de possuírem um candidato em 2014. Os partidos originários da Frente Popular, PSB e PCdoB, já me procuraram e disseram que estarão juntos com o PT no próximo período. Não solicitei esse movimento, mas o saúdo com muita efusividade.

Sul21 – E quanto ao debate interno no PT sobre a eleição de 2014?
Tarso – 
Meu partido ainda não começou a tratar da sucessão estadual. Temos que identificar quem é o melhor candidato para o próximo período, se sou eu e se eu me disponho, ou se é melhor outro companheiro concorrer. Vai depender de quem serão os adversários. Do ponto de vista pessoal, não vou demandar para o PT que eu seja candidato à reeleição. Seria absolutamente impróprio fazer isso.

Sul21 – Ainda sobre a eleição estadual de 2014, qual adversário mais lhe preocupa?
Tarso - 
O panorama para a nossa coalizão é boa. Isso não significa nenhum desprezo com relação aos adversários. As pessoas que estão aparecendo na cena pública como eventuais candidatos devem ser respeitadas. É um jogo democrático e são pessoas que fazem política de maneira democrática e respeitosa. A senadora Ana Amélia Lemos (PP), que é uma das pessoas que aparenta ser candidata, possui uma representação junto ao setor do agronegócio, que é um setor onde temos um trabalho altamente qualificado. Podemos disputar com ela, inclusive conceitualmente, em relação aos governos anteriores, quem tratou de maneira mais correta, tecnicamente adequada e pública essa questão. Tem o Germano Rigotto (PMDB), que também pode ser candidato. Não gostaria de fazer nenhum comentário, pois é meu amigo pessoal. Foi um governador que enfrentou um período de extrema dificuldade, com o estado muito paralisado naquela época, com secas muito grandes. Na minha opinião, boa parte do governo Rigotto não estava à altura dos desafios enfrentados, embora o próprio governador estivesse. O ex-prefeito José Fogaça (PMDB), que foi meu adversário, também é respeitável. Se nós fizermos um bom governo, nenhum deles nos assusta em termos de concorrência eleitoral. Estou otimista em relação a 2014 e acho que teremos mais quatro anos de Unidade Popular Pelo Rio Grande. Isso se deve muito mais ao fato de estarmos executando nosso programa do que à qualquer fraqueza de nossos adversários.

Sul21 – Como o senhor avalia a derrota do PT nas eleições municipais em Porto Alegre?

Tarso - O PT não conseguiu criar um espaço novo, identificado com os movimentos do campo democrático de esquerda. Esse espaço já estava muito ocupado por dois candidatos fortes, a Manuela (D’Ávila, PCdoB) e o (candidato do PDT, José) Fortunati. Nosso candidato (Adão Villaverde), ­que é um quadro político de primeira linha, não conseguiu furar esse bloqueio. Ficamos somente com o que chamamos de “os votos roxos do PT”. Não conseguimos seduzir aquele campo originário no qual fomos hegemônicos durante 16 anos em Porto Alegre.

Sul21 – Por que não?

Tarso – Eu tenho uma tese e a tenho defendido no partido. Nossas principais bandeiras em Porto Alegre não são mais somente nossas. O Orçamento Participativo hoje é aceito por partidos que eram nossos adversários. A cidade como sujeito da globalização e o Fórum Social Mundial não são linhas nossas. Nesse período, o PT não apresentou nada mais adiante. Manteve as posições tradicionais e não agregou nenhuma mensagem nova. Nossas bandeiras democráticas de cunho progressista pertencem a todo o campo do centro progressista, da centro-esquerda e da esquerda de Porto Alegre.

Sul21 – Houve um equívoco também de estratégia eleitoral? O senhor defendia que o PT priorizasse uma composição com o PSB e o PCdoB em Porto Alegre.

Tarso – Minha posição sobre isso é conhecida. Não vou comentar sobre ela. Seria impróprio, depois de ter ocorrido o que eu previ, dar revelo a minha própria opinião. O PT tem que começar a pensar, não somente no Rio Grande do Sul, que não vai ser sempre cabeça de chapa nas circunstâncias importantes da luta política do país. Defendo isso há muito tempo. Não trabalho com a concepção exclusiva do PT como dono da verdade, da Justiça e do bem. Precisamos trabalhar com uma visão de esquerda mais generosa em relação a nossos parceiros e mais dura em relação a nós mesmos. É isso que fará o partido crescer e retomar sua condição de hegemonia em muitas regiões do país.

Sul21 – Nos últimos anos, o PT vem perdendo hegemonia no setor que lhe deu origem: o sindical. O maior sindicato público do estado, o CPERS, é dominado por PSOL e PSTU, como o senhor mesmo frisou. E há inúmeros exemplos em nível regional e nacional no país. O que isso significa? O PT está deixando lacunas na esquerda que estão sendo preenchidas por outros partidos?

Tarso – Esses espaços serão necessariamente ocupados pelos partidos mais radicalizados, mais corporativos e mais vinculados às lutas imediatas e economicistas. Isso é uma lei da História, porque esses movimentos são fragmentários. Hipoteticamente falando, se eu estou à frente de um movimento pelo aumento salarial a engenheiros, eu quero enquadrar o projeto de país a essa necessidade. Isso é praticamente uma síntese histórica de todo o movimento sindical moderno. Seria estranho se não fosse assim. Quem tem o dever de colocar o fragmento dentro da totalidade é o partido, não o sindicato. É o partido que tem que colocar as demandas das partes da sociedade em um conjunto de estratégias para um plano de estado. Seja de nação socialista, capitalista, ou de uma nação pautada pelo projeto social-democrata. O PT teve hegemonia no movimento sindical quando essas demandas eram também integrantes da luta democrática. As ações e a liberdade sindical eram restritas e proibidas durante a ditadura. O PT surge da vanguarda das lutas corporativas e econômicas e se credencia, a partir daí, para se tornar um partido representante de um projeto para o todo. Quando o PT chegou ao governo, com uma hegemonia complexa e um leque ampliado de alianças, esse projeto precisou ser relativizado. E tem que ser assim, senão não se governa. Ou, se governa, cai, como ocorreu com o presidente chileno Salvador Allende. Se o PT não desencadear uma luta ideológica frontal para discutir valores de ideologia e projeto com esses partidos da ultra-esquerda, continuará perdendo sua hegemonia no movimento sindical. E isso não é bom para o partido.

Sul21 – E como conduzir esse processo de confronto ideológico?
Tarso – 
Hoje o PT está em uma situação onde ainda é um partido de estado e de governo, mas ao mesmo tempo é um partido de movimentos. Como partido de governo, o PT ainda não abdicou daquela visão economicista original que diz que tudo o que é progressista, positivo e revolucionário passa pelo movimento sindicial. Ao contrário, em uma situação democrática estável, os sindicatos são normalmente uma voz reformista e economicista tradicional, que só se preocupa com a sua categoria. Isso está demandando, em todo o mundo, uma reavaliação estratégica do movimento sindical e da própria estratégia socialista. Na União Europeia, durante o processo de unificação, os grupos empresariais e os grandes partidos políticos unificaram a Europa em torno do grande capital financeiro. Nesse período, o movimento sindical europeu pedia melhores salários e mais social-democracia. Em nenhum momento apresentaram a proposta de uma Europa social-democrata ou socialista para contrapor o projeto do capital. Qual foi o resultado? Ficaram de fora. Existe uma crise mundial do movimento sindical. O CPERS é apenas um exemplo disso. Isso não retira a validade nem a autoridade dos sindicatos perante o nosso governo. Mas as direções políticas que agem assim entram em um beco sem saída.

 

 

 
Últimas Notícias
 
14/06/2017   -- A luta pelo Brasil em um novo partido
14/06/2017   -- TSE livra chapa Dilma-Temer e vota pela ditadura da propina
14/06/2017   -- Gilmar defende impunidade para PMDB, PT e PSDB
14/06/2017   -- Fux: os fatos são gravíssimos
14/06/2017   -- Lucro das operadoras de saúde aumentou 70% em 2016, diz ANS
 

 
Voltar


 Comente
 
COMENTÁRIOS:
14.06.2017
 O manual da canalhice - ou como Temer escapou no TSE.
14.06.2017
 Trabalhadores nas ruas dizem “Não” às ‘reformas’ de Temer .
14.06.2017
 Boletim do BC reduz a 0,41% previsão para o PIB este ano.
14.06.2017
 Lucro das operadoras de saúde aumentou 70% em 2016, diz ANS.
14.06.2017
 Fux: os fatos são gravíssimos .
14.06.2017
 Gilmar defende impunidade para PMDB, PT e PSDB.
18.05.2017
 Parente corta investimentos e privatiza Campo do Azulão.
19.05.2017
 Com manifestações e panelaço, povo vai às ruas após divulgação de gravações de Temer .
19.05.2017
 Molon protocola pedido de impeachment.
19.05.2017
 JBS: Mantega recebia a propina e distribuía.
19.05.2017
 Agendas e foto desmentem Lula.
19.05.2017
 Okamoto e Vaccari na agenda de Léo Pinheiro.
19.05.2017
  Paim: ‘Quem votar pela PEC da Previdência não volta em 2018’ .
19.05.2017
 Aécio pediu R$ 2 milhões e pegou. Dinheiro foi rastreado até parar em Perrella, o do helicóptero de cocaína.
[+ Notícias]

Correio Eletrônico: pplrs@pplrs.com.br