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25/01/2013 | Déficit externo só é mal se pararmos de vender o Brasil em fatias, diz o BC

Rombo das contas externas: R$ 54 bi

A entrada de IDE ficou abaixo das remessas de múltis para as matrizes

Rombo nas contas externas é coberto com desnacionalização

Para BC, vender empresas nacionais “é benigno”

Que os leitores nos desculpem o tom, talvez excessivamente popular, mas o sujeito deve ter algo atrofiado (não necessariamente o cérebro) para declarar, diante do resultado das contas externas em 2012, que “déficits em conta corrente são naturais em países em desenvolvimento, que precisam absorver poupança externa. O déficit cresce naturalmente porque o país está em desenvolvimento, em crescimento. Mas estamos financiando [o déficit] com investimentos estrangeiros diretos, o que é benigno”.

Essa foi a declaração do funcionário do Banco Central que apresentou as contas externas de 2012, com um déficit inédito em conta corrente de US$ 54,246 bilhões (e com previsão de um déficit de US$ 65 bilhões para 2013).

A declaração do funcionário do BC tem apenas alguns problemas:

1)  “Natural” é chuva ou ventania. E o que “cresce naturalmente” é capim. Déficit em conta corrente (ou déficit nas transações correntes) é consequência de uma determinada política econômica.

2) Os déficits em conta corrente nada têm de intrínseco aos “países em desenvolvimento”. Pelo contrário. O maior déficit em conta corrente do mundo é o dos EUA (quase meio trilhão de dólares). Já o maior superávit em conta corrente do mundo é de um país “em desenvolvimento”, a China.

3) No Brasil, o déficit em conta corrente, em anos mais recentes, somente se tornou um problema muito grave a partir de 1995 (quando aumentou incríveis +915,12% em relação ao ano anterior), devido à política tucana de subsidiar pelo câmbio as importações e encarecer a produção interna; desindustrializar a economia e arrombar o país para o “investimento direto estrangeiro” (IDE) - ou seja, para a desnacionalização das empresas, com as remessas totais para o exterior aumentando +70,95% entre 1995 e 2002, em relação aos oito anos imediatamente anteriores, enquanto as importações, na comparação entre esses mesmos dois períodos, aumentavam +154,34%. Essa política desarvorada faliu inteiramente - ou seja, levou o país à bancarrota.

4) O governo Lula, a partir de 2003, acabou com os déficits em conta corrente, substituindo-os por superávits em conta corrente. Os déficits só voltaram em 2008, devido à política de Mantega de favorecimento ao “investimento direto estrangeiro” (IDE), com o aumento das importações e das remessas de lucros.

5) O Brasil não está “absorvendo poupança externa” (??) ao permitir que uma enxurrada de dólares desvalorizados invada o país e tome suas empresas. Pelo contrário, é a nossa poupança, a poupança interna, que as empresas externas estão confiscando, pela desnacionalização - e, inclusive, através do BNDES (mas não somente desses dois modos).

6) Não é “porque o país está em desenvolvimento, em crescimento” que o déficit em conta corrente cresceu, em 2012, para US$ 54.246.393.412,38 - o maior em 65 anos de História. Pelo contrário, nos últimos dois anos o crescimento do PIB foi derrubado de 7,5% (2010) para medíocres 2,7% (2011) e inclassificáveis 1% (ou menos) em 2012. No entanto, o déficit em conta corrente bateu recorde em 2011 e 2012.

7) Financiar o déficit com investimentos diretos estrangeiros não tem nada de “benigno”. Literalmente, significa que estão cobrindo o rombo externo através da entrega de nossas empresas, com a desnacionalização da economia, e sua consequente desindustrialização, substituição da produção interna por importações e aumento exponencial das remessas de recursos do país para o exterior. Em suma, cobre-se o rombo externo com aquilo que o causou, ou seja, aumentando o rombo.

Os problemas da declaração do funcionário do Banco Central são esses. Parece que ele disse mais alguma coisa, mas ninguém se lembra.

Os fatos nas contas externas de 2012 são os seguintes:

I) As remessas de recursos para o exterior foram US$ 76,523 bilhões. O saldo comercial, US$ 19,431 bilhões. O que quer dizer que, para cobrir essas remessas foi consumido todo o saldo comercial, todas as “transferências unilaterais correntes” (dinheiro enviado, em dólar, por brasileiros residentes no exterior, para suas famílias no Brasil, e trocado por reais pelo BC) e o resto foi completado por dinheiro estrangeiro – dólares que entraram no país para comprar empresas e foram trocados por reais pelo BC.

II) Há quem, a la Gustavo, o doido, guru de Fernando Henrique, acha que é possível viver em déficit, pois o mundo existe para nos financiar. Pois bem, a entrada de “investimento direto estrangeiro” (IDE) ficou US$ 11,251 bilhões abaixo das remessas que saíram do país no mesmo período. Convenhamos que essas entradas de IDE são menos tranquilizadoras para as contas externas do que cinto de segurança em obra do empresário Sérgio Naya. Voltaremos a esse assunto, sob outro ângulo, no último tópico.

III) Logo, dizendo a mesma coisa que no tópico I, mas de outra maneira: a soma do que entrou no país como saldo comercial (US$ 19,431 bilhões) com as “transferências unilaterais correntes” (R$ 2,846 bilhões), menos o que saiu como remessas de recursos para o exterior (US$ 76,523 bilhões), nos dá o resultado da conta corrente (ou transações correntes): o já citado déficit de US$ 54,246 bilhões.

IV) Esse rombo se deve às remessas de recursos para o exterior – cujo item mais significativo são as remessas de lucros das multinacionais para suas matrizes – e às importações, que em 2012 chegaram a US$ 223,149 bilhões.

V)  A mídia fez algum estrondo com o dinheiro gasto em viagens para o exterior (segundo dizem alguns, coisa principalmente de sacoleiros que se abastecem em Miami). Essas viagens montaram a US$ 15,588 bilhões. Logo, são apenas 20% das remessas totais.

VI) Outros – inclusive o BC – ressaltaram que a remessa de lucros oficialmente declarada diminuiu, devido à paralisia da nossa economia. Por pouco não sugerem que, para deixar de ser sangrados, deveríamos paralisar de vez as atividades econômicas no país, porque o único jeito das filiais de multinacionais não enviarem lucros para as matrizes é quando não há lucros. No entanto, com um crescimento do PIB que mal atingiu 1%, foram enviados para fora US$ 35,959 bilhões sob a forma de “renda de investimentos”, “lucros e dividendos”, etc. Ou seja, mesmo nessa situação, os ganhos e lucros oficialmente declarados foram 46,99% das remessas para o exterior. Mas isso é sem contar as formas de envio de lucros disfarçadas ou que embutem uma parcela de lucro em seus valores: despesas com fretes, seguros, juros, royalties, pagamento de empréstimos à matriz, etc., etc.

VII)  Por último, um aspecto para o qual uma vez chamou a atenção a professora Daniela Prates, da Unicamp: a desnacionalização fez com que o estoque de capital estrangeiro dentro do país ascendesse a quatro vezes o valor das reservas. Mesmo o dinheiro meramente especulativo é duas vezes o valor das reservas. Não se espera nenhuma turbulência a curto prazo, mas a história de que temos um “colchão de liquidez” nas reservas... é somente história.

Fonte: Hora do Povo/Carlos Lopes

 

 
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