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20/03/2013 | Aumento de juros nada tem a ver com o controle da inflação

Campanha da mídia só visa juros mais altos

A campanha da mídia e dos bancos pelo aumento de juros continua.

Imagine o leitor que até mesmo apareceram os que constataram que os juros mais baixos prejudicam terrivelmente... os aposentados. Para que ninguém pense que estamos inventando, eis um trecho aparecido em jornal na terça-feira: “’Muita gente está angustiada, porque fez o planejamento para a aposentadoria contando com juros altos’, afirma o economista Rodrigo Menon, sócio da Beta Independent, empresa de aconselhamento financeiro” (cf. Valor Econômico, “Queda do juro já provoca tensão pré-aposentadoria”, 19/03/2013).

No mesmo jornal – na mesma edição – há um artigo intitulado “Economistas do Ibre querem juros mais altos”, com declarações do tipo “’O Banco Central precisa elevar os juros. É difícil imaginar uma inflação abaixo de 6% no médio e longo prazos sem aumentar a Selic’. (…) Silvia estima que o Copom terá de reajustar a Selic em 150 pontos-base, para 8,75% ao fim deste ano”.

Porque 8,75% e não qualquer outro número? E desde quando a “dificuldade de imaginar” é um critério para estabelecer a taxa de juros? Realmente, a sociedade não pode ser punida pela falta de imaginação de alguns...

Já “O Globo”, resolveu usar o velho tom da gorilada: “Banco Central precisa ser firme contra a inflação”. Só falta mandar prender e arrebentar os subversivos que impedem os juros de subir.

Paramos por aqui, leitor, nesse apanhado de indignidades, e vamos ver o que diz a ata da última reunião do Copom, publicada na quinta-feira da semana passada.

A leitura da ata do Copom é uma descida aos infernos da literatura burocrática. Não é por acaso que quase ninguém lê esses calhamaços da diretoria do Banco Central. Nem todas as pessoas têm paciência com trechos que querem dizer absolutamente nada. Por exemplo: “O Copom avalia que os efeitos do comportamento dos preços no atacado sobre a inflação para os consumidores dependerão das condições atuais e prospectivas da demanda e das expectativas dos formadores de preços em relação à trajetória futura da inflação” (Ata da 173ª Reunião do Copom, item 3).

Porém, vamos ao que interessa: tanto a tentativa de aumentar os juros, quanto a sua derrota na última reunião do Copom, estão registradas no mesmo item da Ata, o de número 28 - “O Copom avalia que a maior dispersão recentemente observada de aumentos de preços ao consumidor, pressões sazonais e pressões localizadas no segmento de transportes, entre outros fatores, contribuem para que a inflação mostre resistência. Embora essa dinâmica desfavorável possa não representar um fenômeno temporário, mas uma eventual acomodação da inflação em patamar mais elevado, o Comitê pondera que incertezas remanescentes – de origem externa e interna – cercam o cenário prospectivo e recomendam que a política monetária deva ser administrada com cautela” (grifos nossos).

O primeiro trecho grifado somente foi incluído para, supostamente, justificar um aumento dos juros. Tanto é assim que três “medidas de núcleo” (isto é, com expurgo de fatores considerados acidentais) do índice de inflação oficial (IPCA) mostraram queda - o que é registrado no item 2 da Ata.

O segundo trecho grifado significa que o BC não viu condições políticas para aumentar os juros – em palavras mais simples: a diretoria do BC, demonstrando uma razoável noção de perigo, deixou os juros básicos onde estavam, com a taxa Selic nominal em 7,25%, o que significa, descontada a inflação projetada para os próximos 12 meses, uma taxa real de 1,5% ao ano.

Somente idiotas ou cínicos podem dizer que aumentar juros é uma decisão “neutra” ou “técnica”. Evidentemente, essa decisão (ou a oposta) corresponde a uma determinada política econômica; é uma decisão política - e essa é a razão pela qual as historietas sobre bancos centrais “independentes” ou “autônomos” são conversa de vigarista. Quando o BC não está executando a política do governo, certamente está executando a política da oposição. O resto – os dogmas sobre a “política monetária”, isto é, o aumento de juros, que seria a única forma de combater a inflação - é asnice. O motivo de aumentar os juros não é outro senão aumentar os juros. Nada tem a ver com a inflação. Já veremos a prova disso.

Aumentar os juros básicos na situação atual, de crescimento baixo e investimentos ainda declinantes, equivale a algo próximo do homicídio econômico do país. E, notem os leitores, estamos falando apenas dos juros básicos, pois, segundo a Ata do Copom, a taxa média para empréstimos às empresas foi de 13,9% em janeiro e a taxa média para empréstimos às pessoas foi de 24,6%. Em suma, a taxa média (incluindo empréstimos a empresas e pessoas) do sistema financeiro foi 18,5% a.a., ou seja, duas vezes e meia a taxa básica (item 64 da Ata do Copom). Ressaltando: trata-se da taxa média.

Ainda próxima da órbita de Urano, se comparada a da maioria dos países, essa taxa seria maior ainda se considerássemos apenas os bancos privados: na verdade, os bancos públicos, ao cobrar juros mais razoáveis em seus empréstimos, fizeram-na descer para 18,5%.

Voltemos à Ata do Copom e sua lengalenga sobre a inflação.

Diz o Copom que “a inflação de serviços segue em níveis elevados, e observam-se pressões no segmento de alimentos e bebidas”.

A “inflação de serviços”, segundo as tabelas do IBGE para o IPCA, deve-se aos preços das manicures (+1,15% em fevereiro), dos empregados domésticos (+1,12%), dos serviços de depilação (+1,73%) e dos despachantes (+2,42%).

Convenhamos que o peso desses setores na economia nacional – se a indústria não estivesse semidestruída – seria ridículo. Mesmo na situação atual, esse peso é muito pequeno: o IBGE informa que, na composição do IPCA, os preços das manicures têm um peso de 0,42% no índice; os empregados domésticos, um peso de 3,74%; a depilação, um incrível peso de 0,01% do IPCA; e os preços dos despachantes, são minúsculos 0,09% no índice oficial de inflação (cf. IBGE, Sistema Nacional de Índices de Preços ao Consumidor, “Pesos mensais por grupos, itens e subitens”, fevereiro/2013 ).

[Antes que o leitor pergunte: segundo o IBGE, os serviços bancários não tiveram aumento em fevereiro.]

Completamente diferente é a situação dos “alimentos e bebidas”, que têm um peso de 24,25% no IPCA e, somado ao item “alimentação no domicílio”, constitui nada menos que 40,24% do índice oficial de inflação.

São setores tremendamente cartelizados, monopolizados – e desnacionalizados.

Os aumentos de +1,45% nos “alimentos e bebidas” e de +1,63% nos preços de “alimentação no domicílio” tiveram, portanto, um peso imensamente maior que a soma de todos os setores de serviços pessoais. E não foi devido à farinha de mandioca, pois, apesar do preço desta ter aumentado +16,15%, esse carboidrato nacional tem um peso de apenas 0,21% no índice de inflação.

Obviamente, combater aumentos de preços de monopólio com aumento de juros seria uma estupidez, se não fosse um crime. Porque significa esculhambar com toda a economia, sem que haja efeito algum, exceto aumentar a importação devido à maior distorção do câmbio, precisamente por efeito da taxa de juros. Preços de monopólio são combatidos com um combate ao monopólio – inclusive o financiamento público de empresas não-monopolistas. Aumentar os juros tem apenas a função de aumentar os juros.

Fonte: Hora do Povo/Carlos Lopes

 

 
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