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Créditos:Salmo Duarte/Agência RBS
09/04/2013 | Entrevista: Coreia do Norte chama embaixador do Brasil para explicar tensão

O embaixador do Brasil na Coreia do Norte, Roberto Colin, 60 anos, mantém um escritório na capital, Pyongyang. Antes de se tornar embaixador, o catarinense Colin foi ministro-conselheiro da embaixada brasileira na Alemanha. Com mais de 30 anos de carreira diplomática, foi o segundo a responder pela representação brasileira aberta em 2009 no território norte-coreano.

País mais fechado do mundo, a Coreia do Norte é governada sob severa ditadura. Desde 1953 está em estado de guerra declarada com a Coreia do Sul, quando a península foi dividida. O novo líder, de 30 anos, é considerado uma incógnita para os vizinhos ameaçados – Coreia do Sul e Japão – e para o mundo ocidental e suas ameaças começam a ser levadas a sério.

Entrevista

Diário Catarinense – A Coreia do Norte teria condições de fazer estes ataques prometidos?

Colin – Eu não acredito, mas só o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, tem autoridade para declarar uma guerra. Nem ele e nem os demais membros da liderança daqui, a maioria militares, nunca me pareceram irracionais, ilógicos e muitos menos suicidas.

DC – Mas o que eles querem com essas ameaças ao Ocidente?

Colin – O que eles desejam, o que está por trás de tudo isso, é a preservação e a sobrevivência do regime. Eles têm um receio muito grande de que possam ser atacados. Costumam dizer que aprenderam uma grande lição com a Iugoslávia, com o Iraque e com a Líbia, que foram países que não puderam se defender dos ataques americanos. A Líbia tinha um programa nuclear e abriu mão. Os coreanos do norte costumam dizer que todos aqueles que foram atrás das palavras dos americanos, acabaram mal. Eles decidiram que a única maneira de sobreviver é desenvolvendo armas nucleares. Mas aí há uma grande discussão porque de fato eles lançaram um foguete com satélite em dezembro, fizeram o terceiro teste nuclear em fevereiro, mas o que eles realmente têm ninguém sabe.

DC – Ninguém sabe se eles têm uma bomba atômica? Eles têm essas condições?

Colin –
Muitos acham que eles estão blefando, mas que de fato eles têm alguma coisa. Uma crítica que muitos analistas fizeram aos americanos que estão neste impasse com a Coreia do Norte há alguns anos, é de que na administração Barack Obama, por exemplo, nenhuma medida foi adotada promovendo diálogo ou qualquer ação para tentar resolver o problema da península coreana, uma região bastante delicada politicamente. Os americanos adotaram uma política que eles mesmos chamam de "paciência estratégica".

DC – Como o senhor vê o governo do ditador Kim Jong-un?

Colin – Tanto o governo dele quanto do pai dele, falecido no final de 2011, mostram que eles não são irracionais e imprevisíveis. Dos contatos que eu tive até hoje, jamais eu percebi isso. Eles são muito lógicos e racionais dentro da visão do mundo que eles têm.

DC – O impasse parece não ter fim.

Colin – Essa paciência estratégica, por outro lado, deu tempo para a Coreia do Norte continuar os seus progressos tanto na tecnologia missilística quanto nuclear. O que de fato eles alcançaram ninguém sabe. Este é o grande risco. Daí a necessidade de um diálogo. Essa política de confrontação dos Estados Unidos, da Coreia do Sul, do Japão e desses países nestas décadas, não levaram a nada. O que se conclui é o que o diálogo é a única maneira de resolver esse impasse.

DC – Como estão as ruas da cidade e a população?

Colin – Você não vê nada de anormal. Nada de veículos militares, camuflados, absolutamente nada. A população está inteiramente mobilizada para embelezar a cidade. Como a primavera começa em breve, decidiram trocar a grama da cidade inteira, uma coisa impressionante. Um novo tipo de grama que fica verde até mesmo no inverno. Nesta época do ano há grandes mutirões, como havia na União Soviética, em que a população toda, dos jovens às pessoas mais velhas, limpa a cidade e a preparam para a primavera. Está todo mundo numa atmosfera positiva. Tão importante quanto isso, dia 15 de abril é o dia do aniversário do fundador do país, é chamado de o Dia do Sol. É uma data de grande festividade. A cidade é toda enfeitada, há concertos, manifestações esportivas, está todo mundo neste espírito. Claro que, ao mesmo tempo, você liga a TV e abre os jornais e todos os dias é dito que eles estão prontos para a guerra.

DC – Há sinais de mudança no país?

Colin – Neste domingo, houve uma reunião que ocorre uma vez por ano, no máximo duas, do Comitê Central do Partido e, na segunda-feira, uma reunião do Parlamento, que também ocorre uma vez por ano. São esses os momentos em que aparecem as grandes novidades nos quadros do governo. Uma grande novidade é que foi nomeado um novo primeiro ministro, que já tinha sido primeiro ministro entre 2003 a 2007 e foi demitido. Ele promoveu, na época, as reformas mais importantes que já houve neste país. Alguns dizem que estas reformas foram tão bem sucedidas que o governo ficou preocupado de que poderia perder o controle sobre elas como aconteceu com o Gorbachev na União Soviética. Decidiram demiti-lo do cargo, alguns o acusaram de estar sendo influenciado pelo que chamaram de ventos capitalistas amarelos numa referência à China. Ele sumiu do mapa. No ano passado, foi nomeado vice-primeiro ministro e diretor do Departamento de Indústria. Isso foi visto como um sinal de que o novo líder desejaria promover algum tipo de mudança.

DC – Qual o discurso do líder nestes dias?

Colin – Nos discursos que ele fez, tanto no domingo quanto na segunda, é que essa situação de tensão permanente, de ameaça de guerra, veio mais à tona. Disse que se sentem permanentemente ameaçados pelos Estados Unidos, inclusive pelo poder nuclear norte-americano. E que essa situação tem impedido o desenvolvimento e a construção econômica do país, porque eles têm que desviar todos os recursos para a defesa.

DC – Por que o Brasil decidiu abrir uma embaixada na Coreia do Norte?

Colin –
O país decidiu abrir uma embaixada em 2009 para contribuir para a paz na região. O Brasil acha que a política de confrontamento e isolamento em nada ajuda e que o papel do país e da comunidade internacional é de ajudar a Coreia do Norte a se integrar e, dessa forma, tornar-se mais previsível e menos hostil. Isso mediante a cooperação econômica, por exemplo. O fato de nós estarmos fisicamente aqui é muito importante, pois nós temos um canal direto de comunicação com o governo local. Nossas avaliações são feitas com base nas conversas diretas com autoridades daqui e não com a análise de outros ou suposições.

DC – Como é a sua relação com as autoridades do governo?

Colin – Qualquer encontro que eu solicite, em qualquer nível do governo, é sempre prontamente atendido. Sou sempre convidado para todos os grandes eventos do país.

DC – O senhor conversou com as autoridades brasileiras sobre uma possível guerra? Como o Brasil vai agir caso ocorra o conflito?

Colin – Como o governo aqui não nos fez qualquer comunicado, seja para estarmos prevenidos ou para prestar algum esclarecimento, eu mesmo decidi fazer isso. Ontem (quinta-feira na Coreia do Norte) eu pedi um encontro com o Ministério do Exterior e fui prontamente atendido, imediatamente.

DC – O que o senhor queria saber?

Colin – Eu queria entender a situação. Eles não entraram nos detalhes do fechamento de Kaensong (complexo industrial que é dividido com a Coreia do Sul), falaram do quadro geral dando a posição deles de que a causa de tudo isso são esses exercícios militares americanos, a hostilidade americana e, por isso, são obrigados a se defender. Disseram o seguinte: "Nós não queremos uma guerra, mas nós estamos preparados para ela". Ontem (quinta-feira), tarde da noite, me telefonaram convidando para um encontro hoje (sexta-feira lá) com o vice-ministro. Eu não sei se o meu gesto provocou neles a necessidade de prestar esclarecimentos, mas, de qualquer maneira, convidaram todo o corpo diplomático para um encontro onde eu imagino que farão o mesmo de ontem. Não me disseram nada que pudesse causar apreenssão. Confirmaram que é uma situação de grande tensão, de risco, mas não disseram para se preparar para a guerra.

DC – O senhor completou um ano como embaixador na Coreia do Norte. Como foi recebido, incluindo sua mulher e o filho?

Colin – Nós nos sentimentos muito bem neste país. Fomos bem acolhidos pelo governo,. A comunidade estrangeira é relativamente pequena. Só há 25 embaixadas aqui. Mas justamente por isso somos muito unidos, solidários e nos encontramos com frequência. É um país difícil de se obter informações mesmo estando aqui.

DC – Como o senhor vê o seu trabalho na Coreia do Norte?

Colin – Eu vim pra cá com grande entusiasmo pois é meu primeiro posto como embaixador. Sou diplomata há 33 anos. Este posto é interessante para qualquer diplomata, pois grandes temas da agenda internacional, como desarmamento e a não proliferação nuclear, aqui fazem parte do dia a dia. A Coreia do Norte está situada na região mais dinâmica do mundo do ponto de vista econômico. Nesta região também estão as grandes potências nucleares. Do ponto de vista geopolítico também é muito interessante.

DC - E qual o interesse de estreitar as relações entre Brasil e Coreia do Norte?

Colin – Os norte-coreanos veem um país com o porte do Brasil como um parceiro desejável. Claro que aqui existem algumas restrições. Nunca fui advertido, mas eu não posso me comunicar com a população local, nem ir à casa de ninguém, não posso convidar as pessoas comuns para visitarem à minha casa. Posso convidar as pessoas do governo e de outras instituições. Anteontem, convidei para a embaixada um grupo de 10 estudantes de língua portuguesa. Eu os convidei com os professores e ofereci um jantar e pudemos conversar os mais diversos assuntos. Os dois professores, inclusive, gostariam muito de receber o convite de alguma universidade brasileira para fazer um treinamento. Estou verificando esta possibilidade. Quando eu ando pelas ruas recebo manifestações de carinho de todos os lados. Até porque os turistas sempre andam em grupos e estou sempre sozinho. Não há um sentimento negativo em relação aos estrangeiros.

DC – Os acontecimentos tensos mais recentes estão ligados ao complexo industrial Kaesong, quase na fronteira com a Coreia do Sul, onde empresários da Coreia do Sul têm fábricas e onde trabalham milhares de norte-coreanos. Como acordou a Coreia do Norte nesta sexta-feira em relação a este assunto?

Colin – Esta escalada retórica começou em março com exercícios militares conjuntos dos Estados Unidos e a Coreia do Sul. Esses exercícios sempre provocam grande alarde na Coreia do Norte. Eles conhecem muito bem a história, a guerra da Coreia. A Coreia do Norte supostamente fazia um exerício militar junto da linha demarcatória nesse paralelo 38 e de uma hora para outra invadiu a Coreia do Sul. Então, ela tem receio. Aqui a história é contada de outra maneira, como se eles tivessem sido invadidos pela Coreia do Sul. Junto dessa linha demarcatória, foi construído o complexo industrial de Kaesong. Foi criado durante um período chamado A Política do Raio de Sol por dois presidentes da Coreia do Sul que decidiram se aproximar da Coreia do Norte.

DC – E quando houve a ruptura?

Colin – Constantando que a reunificação seria impossível devido ao desnível de desenvolvimento entre um país e outro por tantas razões, eles achavam que o melhor era ajudar a Coreia do Norte a se desenvolver economicamente para que um dia fosse possível a reunificação. Na fronteira foram construídos dois grandes complexos, um foi turístico, que acabou sendo fechado. A outra coisa que ficou foi o complexo industrial que tem 120 empresas sul-coreanas e onde trabalham 30 mil norte-coreanos. Ela sempre foi um grande símbolo de que é possível uma aproximação entre os dois países. A própria Coreia do Norte ganha muito com isso. Como o país está sob várias sanções das Nações Unidas, ela tem um problema para obter moeda forte. No entanto, nos últimos cinco anos, o presidente da Coreia do Sul, que terminou seu mandato recentemente, Lee Myung-bak, decidiu adotar uma política muito dura com a Coreia do Norte e todos os contatos foram cortados.

DC – Mas o complexo continuou...

Colin – Sim, mas nunca saiu da primeira etapa e sempre era um termômetro das relações. Não foi fechado, mas no jornal de domingo se dizia que houve uma ameaça de fechamento porque os jornais da Coreia do Sul publicaram que a Coreia do Norte fica com essa retórica belicista, mas não mexe no complexo porque tem interesse no dinheiro. Isso foi muito mal recebido aqui e o governo disse que só manteve aberto em consideração aos empresários sul-coreanos e aos operários que lá trabalham, mas que podem fechar a qualquer momento. Eles querem que os empresários façam pressão contra o governo e a imprensa. Na verdade, essa restrição impedindo o trânsito tem o objetivo de pressionar as empresas para que elas pressionem o governo sul-coreano a parar o que eles chamam de campanha difamatória.

Fonte: Diário Catarinense/Cristiano Santos

 
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