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12/06/2013 | Receituário anticrescimento derruba aprovação de Dilma

Aumentos de juros, privatizações, corte nos investimentos e queda do PIB estão se refletindo na redução de popularidade

Seria preciso uma ingenuidade grande – para não dizer, uma imbecilidade total – para acreditar na versão, propagada pela mídia mais oposicionista e mais reacionária, de que a queda de popularidade do governo Dilma, registrada por algumas pesquisas, ocultas ou publicadas (duas do Ibope, uma do Vox Populi, e, especialmente, uma do Datafolha - ver matéria nesta página), foi devida a uma suposta inflação.

Certamente, não se trata apenas de uma bobagem, mas de uma campanha pelo aumento cavalar dos juros - na "previsão" (isto é, na intenção) do Citibank, por exemplo, para que a taxa de juros básicos (Selic) atinja 9,25% até dezembro. Não é preciso dizer onde isso levaria o país, que, na situação atual, está com crescimento econômico próximo de zero. Resta saber para onde isso levaria, também, a eleição do ano que vem, pois os aumentos de juros estão liquidando, precisamente, com a grande conquista do governo Dilma, a redução dos juros, que, até o reinício desses aumentos, era um esteio de sua popularidade.

REMUNERAÇÃO

Não é apenas que o objetivo desses aumentos de juros não é combater a inflação, mas aumentar aquilo que o ex-ministro Delfim Netto chama de "remuneração do banqueiro" - o juro real, o juro além da inflação. Nada, aliás, expõe tão cruamente o objetivo desses aumentos de juros quanto a ausência - mesmo numa abordagem conservadora, que ainda crê nas virtudes metafísicas da taxa de juros - de qualquer surto inflacionário: "... os dados mais recentes da economia brasileira não permitem tal leitura. Nem há indicações de que as expectativas inflacionárias tenham se deteriorado no período mais recente, justificando uma aceleração da taxa de juros. Mais do que isso, o conhecimento convencional nos diria que o Banco Central deve elevar a taxa de juros quando a inflação estimada ou prevista para os próximos meses está em aceleração" (Yoshiaki Nakano, "Problemas da política monetária", Valor, 11/06/2013).

Mas, se a inflação, como se sabe, não está em aceleração – e, de qualquer maneira, esse problema é uma farsa - por que a popularidade do governo é sensivelmente cadente, a tal ponto que a queda nas pesquisas parece não expressar completamente a queda real?

Primeiro – mas não exatamente pela ordem - porque está assistindo, calado, aos aumentos de juros do BC. E, apesar de algumas considerações, digamos outra vez, conservadoras, o professor Nakano descreve bem a situação geral de "medíocre desempenho da economia, muito abaixo da tendência prevalecente nos anos precedentes (...). A situação é bastante preocupante, pois claramente ela gera inquietações entre os trabalhadores e pode ter consequências sociais e políticas imprevisíveis" (art. cit.).

Explicitando o problema: a taxa anual média de crescimento do governo Fernando Henrique, uma das mais pífias de toda a História do Brasil, foi, de acordo com os dados revisados do IBGE, 2,3%. O governo Lula conseguiu duplicar essa taxa de crescimento: 4% de média anual nos dois mandatos e 4,6% no segundo mandato - chegando, no último ano, a 7,5%.

Pois, em dois anos, o governo Dilma recuou para minúsculos 1,8% de média anual - ou seja, menos que o desastroso governo Fernando Henrique. Por consequência, inferior, também, ao crescimento econômico do governo Dutra ou do governo Café Filho, dois períodos pouco gloriosos da nossa República (cf. IBGE/SCN 2000 Anual, "PIB - var. real anual % a.a.", 1901-2012).

Somente um elemento sem a menor seriedade, como o senador Lindbergh Farias, poderia, diante desse quadro, em verdade dramático, pregar que "quando um trabalhador vai ao supermercado, não se importa com o crescimento do PIB; importa se tem renda para pagar a conta. Quando demanda um eletrodoméstico financiado, não se importa com o crescimento do PIB; importa se tem emprego e renda que garantam crédito para a sua compra. Quando vai pagar a conta de luz, o que importa é se está mais cara ou mais barata. O crescimento do PIB é um número abstrato na vida do trabalhador".

A ditadura pretendia fazer "crescer o bolo" para depois distribuí-lo. Era injusto e, ao final, levou o país a uma violenta crise. Mas o senador Lindbergh pretende que é possível cada um aumentar a sua fatia com o bolo diminuindo de tamanho. Seria apenas um mágico ou um charlatão, se não fosse, também, o presidente da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. Como tal é um irresponsável, de uma leviandade infinita e com qualidades intelectuais tão imperceptíveis que acredita que essa demagogia escancarada é capaz de colar.

Mas os trabalhadores não são essas bestas quadradas que pretende o senador Lindbergh, num evidente exercício de projeção. Eles sabem o que é o PIB, produto interno bruto, porque todo trabalhador sabe o que é produção; aliás, só os vagabundos não o sabem – e, de qualquer modo, não existe dificuldade em perceber que, se a produção do país não aumenta (fisicamente e em valor), daqui a pouco não haverá renda para pagar as contas; não haverá crédito acessível para comprar um liquidificador; não haverá nem luz em casa, se essa estupidez for embalsamada como doutrina de governo, assim como não haverá, para a maioria ou para muitos, salário ou emprego. Somente os que não produzem têm dificuldade de ver que sem produção não existe país, nem trabalho nem salário. Que não é possível ter condições econômicas – condições de vida – dignas, sem aumento da produção, sem aumento do PIB. E não se trata de uma hipótese: o quadro já se delineia em vários setores da indústria e dos serviços – salários baixíssimos e ameaça de desemprego, ou este já começando a devorar a força de trabalho, isto é, a vida do trabalhador.

No entanto, o senador não é capaz de elaborar nem essas inanidades. Copiou-as do sr. Mantega, que declarou: "criar empregos é mais importante que crescer o PIB". Provavelmente por falta de experiência no assunto, Mantega quer criar empregos que nada produzam, que não aumentem a produção - e que não dependam, para ser criados, do aumento da produção. Mas nem a sinecura em que transformou o cargo de ministro da Fazenda é assim.

RELATÓRIO

Enquanto isso, com o país sob um crescimento de 0,87% em 2012 (o que, para todos os efeitos práticos, é igual a zero), o último relatório do Tesouro registra que, até agora, foram liberados apenas 1,74% dos investimentos previstos no Orçamento deste ano. O Ministério que mais investiu, o das Cidades, teve liberados apenas 3,36% da verba anual – o que chega somente a R$ 850 milhões (cf. TN, "Resultado do Tesouro Nacional", Vol. 19, N. 04, Abril/2013, Anexo - tabela 1.5).

Pelo mesmo relatório (págs. 16 e 17, tab. 10 e 11), sabemos que o aumento das verbas públicas para o PAC foi de apenas R$ 2,8 bilhões no primeiro quadrimestre deste ano, enquanto houve uma redução de -93,53% nas verbas orçamentárias do Custeio Agropecuário; de -95,64% nas do Programa de Sustentação do Investimento (PSI) do BNDES; de -22,09% no Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf); e de -87,77% no Programa de Aquisição do Governo Federal (AGF). Sobretudo o corte na subvenção do PSI significa um aumento de juros para os empresários.

Como, ao invés de aumentar o investimento público, a única resposta que o governo tem para as consequências da sua própria política recessiva é privatizar o que é público e nacional, entregando até o petróleo do pré-sal, é inevitável que sua popularidade caia. Dilma venceu Serra exatamente quando denunciou o caráter privatista e entreguista do adversário, em especial sua intenção de entregar o petróleo do pré-sal. O povo votou nela porque era contra privatizar e entregar as riquezas do país aos monopólios privados e cartéis estrangeiros. O povo não votou na atual presidente para que ela implementasse, parcial ou totalmente, o programa de Serra.

Fonte: Hora do Povo/Carlos Lopes

 
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