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08/11/2013 | Remessa de lucros até setembro sangra Brasil em R$ 107 bi

 Remessas aumentaram 17,5% em relação a 2012. Já o PIB segue no brejo

Isenções e BNDES alavancam remessa de lucros das múltis

Em nove meses, saíram para o exterior
US$ 47,129 bilhões, ou, RS 107 bilhões

A fantasia de que os rombos provocados por uma política irresponsável e lesiva ao país, de favorecimento alucinado a cartéis e monopólios financeiros externos, podem ser cobertos eternamente com o aumento do próprio rombo – isto é, com os dólares que esses mesmos cartéis e monopólios usam para invadir o país - fez um tremendo sucesso entre os tucanos da cúpula, durante o governo Fernando Henrique Cardoso. Foi com tais profundas ideias que eles quebraram o país – apesar (ou por causa) da privatização de 88 estatais, inclusive a Vale do Rio Doce e as empresas de telecomunicações – e foram, eleitoralmente, banidos para o meio-fio da vida política do país. Afinal, foi para acabar com a destruição que eles perpetraram, que o povo elegeu, em 2002, o presidente Lula.

Entretanto, algumas múmias e almas penadas escaparam, infelizmente, do cemitério – e baixaram, aliás, encarnaram em alguns próceres do atual governo.

As remessas para o exterior aumentaram 17,45% de janeiro a setembro em relação ao mesmo período do ano passado – e +21,39% em relação ao último ano do governo Lula, também de janeiro a setembro.

Subtraindo o dispêndio com viagens e considerando apenas as remessas de lucros – explícitas e implícitas – saíram do país US$ 47,129 bilhões, ou, ao câmbio de quarta-feira, R$ 107 bilhões, mais de sete vezes o que o governo vai receber como bônus de assinatura pelo leilão do campo de Libra.

Mas, ora, dirão, esses R$ 107 bilhões não são dinheiro da União, portanto, essa comparação é descabida. Realmente, esses R$ 107 bilhões não são recursos da União. São recursos do país, como o próprio campo de Libra, enviados para fora com a mesma falta de necessidade, na maior parte, da entrega de 40% da exploração do petróleo em Libra.

No mesmo período, em relação a 2012, as montadoras multinacionais de automóveis aumentaram suas remessas em 87% e o setor de bebidas (ou seja, a Ambev, aquela que, segundo alguns, é uma empresa nacional) aumentou sua remessa de lucros para o exterior em 82%.

Na prática, esse é o destino das desonerações, concedidas pelo governo às filiais de multinacionais, assim como dos empréstimos que o BNDES lhes proporciona: aumentar sua margem de lucro para que possam enviar mais dinheiro para suas matrizes. Trata-se de espoliação ao país que parece ter saído de algum museu do colonialismo – ou do escravagismo antigo, quando os romanos extorquiam tributos das nações que ocupavam.

Enquanto isso, o déficit comercial, depuradas as contas das exportações fictícias – plataformas de petróleo que nunca saíram do país, registradas como exportações para efeitos de isenção fiscal – está em US$ -6,759 bilhões, devido ao aumento das importações, que já montam, no ano, a US$ 179,259 bilhões.

Como consequência, o déficit nas transações correntes (ou déficit em conta corrente), isto é, grosso modo, o déficit na conta externa de curto prazo, aumentou 76,97%, chegando a US$ 60,416 bilhões – com previsões de que irá, até dezembro, próximo de US$ 80 bilhões (em 12 meses, esse déficit já chegou a US$ 80 bilhões, mais precisamente, a US$ 80,5 bilhões).

Há muito temos alertado que a política de favorecer as filiais de multinacionais como principal setor da economia só poderia, e só pode, conduzir a um desastre. O que estamos mostrando é que todas as condições para esse desastre já foram engendradas por essa política estúpida.

É risível a afirmação de que está tudo muito bem porque “o mundo confia em nós” - e a prova seriam os US$ 43,782 bilhões de “investimentos diretos estrangeiros” (IDE) que já entraram este ano.

Pois o problema está exatamente aí: nessa compra em massa, como se fosse xepa em fim de feira, de empresas nacionais - pois é isso o que se chama “investimento direto estrangeiro” (IDE).

De janeiro de 2011 a setembro de 2013 entraram no país, em termos líquidos (ou seja, descontadas já as saídas), US$ 175,714 bilhões em IDE. No entanto, a taxa de investimento caiu, porque esse dinheiro veio para tomar empresas já construídas (investimentos já realizados) pelos brasileiros – e transformá-las em filiais remetedoras de lucros e importadoras de componentes ou de bens já acabados.

Portanto, o IDE é o problema, não a solução. A política de cobrir o rombo externo com IDE, alardeada pelo sr. Mantega, redundou num aumento tal do rombo que, hoje, esses bilhões em IDE são já incapazes de cobri-lo. O recurso a dinheiro especulativo externo, nos últimos 12 meses, já equivale a 0,85% do PIB – mais de 25% do rombo externo nos últimos 12 meses foi coberto com dinheiro especulativo, volátil, que pode sair do país a qualquer hora.

Além disso existe aquele problema, bem demonstrado pelo economista indiano Ajit Singh, da Universidade de Cambridge: cada vez mais o próprio IDE tem um caráter especulativo, daí as aquisições de empresas pelos fundos especulativos de Wall Street e outras ruas assemelhadas - uma praga que se espalhou pelo nosso país de tal forma que as empresas vivem trocando de mãos, até que, simplesmente, desaparecem em alguma curva do caminho, ou seja, são torradas aos pedaços.

Mas isso significa que o famoso “colchão de liquidez” que seria constituído pelas reservas de US$ 376 bilhões, é pouco diante dos US$ 590,738 bilhões especulativos (“investimentos estrangeiros em carteira”), mais os US$ 732,536 bilhões em IDE, mais os US$ 193,776 bilhões em empréstimos bancários externos que existem hoje dentro do país.

Ressaltemos que essa soma de US$ 1 trilhão e 517 bilhões de dinheiro externo não tem qualquer efeito dinamizador sobre a economia, ou seja, não faz o país crescer. Pelo contrário, seu efeito é no sentido da estagnação, pois economicamente esses recursos são parasitários – eles existem para extrair ganhos e enviá-los, na máxima quantidade possível, para fora, não apenas sob a forma de lucros oficialmente declarados, mas de dezenas de outras formas, inclusive o superfaturamento de importações. Portanto, seu efeito não é, essencialmente, aumentar a acumulação interna, mas reduzi-la por um vazamento – e que vazamento! - externo.

Quanto à estrutura produtiva interna, a consequência é a transformação de uma série de empresas em maquiladoras – empresas que produzem apenas com insumos e componentes importados, devido à destruição de elos das cadeias de produção.

A solução encontrada pelo atual governo é semelhante à daquele ditador da velha anedota, que pretendia solucionar os problemas causados pela sua subserviência aos EUA, provocando a anexação de seu país pelos EUA.

Já que o país encontra-se estagnado, ou andando para trás, devido ao asfixiante parasitismo externo sobre sua economia, a solução da atual política econômica é desistir e entregar logo o petróleo, as rodovias, as ferrovias, os portos e sabe-se lá o que mais para o dinheiro estrangeiro. Não que o governo tenha alguma esperança de que, assim, o capital estrangeiro fará investimentos para que o país cresça. Pelo contrário, o governo tem tão pouca esperança nisso, que promete, como atrativo aos bancos, fundos e outras multinacionais, o dinheiro do BNDES.

Talvez a esperança seja a de que se eles não tiverem de gastar nada do seu bolso, pode ser que façam uma boa gestão... Realmente, se deixássemos, é possível que eles fizessem alguma coisa parecida com a gestão de Al Capone em Chicago. Só que em escala muito maior.

Fonte: Hora do Povo/Carlos  Lopes

 

 
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