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20/08/2014 | Dilma diz que crescimento menor do que de FHC não é muito ruim

Entrevistada na TV, presidenta pôs-se a dar uma aula, como sempre, sobre o que não entende

A entrevista de Dilma à Globo, na segunda-feira, é típica dos adesistas do neoliberalismo: sem compromisso algum com a verdade e sem nenhum remorso por não ter esse compromisso. É verdade que os entrevistadores eram dois débeis mentais - que fizeram o possível para vitimizá-la.

Porém, quando o mais exibido e mais débil mental deles, afinal, disse uma verdade (que a situação econômica é “muito ruim”, conclusão a que não é preciso ser um gênio para se chegar), Dilma replicou que “não, o resultado no momento, veja bem, eu não sei, eu não sei de onde que estão seus dados”.

Dilma, então, pôs-se a dar uma aula, como sempre, sobre o que não entende: “tem uma coisa em economia que chama os índices antecedentes (...).  O que que são os índices antecedentes, por exemplo? A quantidade de papelão que é comprada, a quantidade de energia elétrica consumida, a quantidade de carros que são vendidos. Todos esses índices indicam uma recuperação no segundo semestre”.

Tudo isso é rigorosamente mentira. A produção de papelão ondulado (para embalagens) cresceu apenas 0,23% de janeiro a julho, ou seja, zero. Dilma está manipulando a alta de julho, que, a rigor, cobriu a queda de junho (dados da Associação Brasileira do Papelão Ondulado – ABPO). É verdade que ela falou da “quantidade de papelão que é comprada” e não da que é produzida, mas é difícil esse marasmo na produção com vendas espetaculares...

O consumo de energia elétrica pela indústria está em queda. Caiu de janeiro a junho, comparado ao mesmo período do ano passado, assim como caiu em maio em relação a abril e em junho sobre maio (cf. EPE, “Consumo mensal de energia elétrica por classe (regiões e subsistemas) – 2004-2014”).

A venda de carros caiu  -8,6% de janeiro a julho em relação ao mesmo período de 2013 e a produção caiu -17,4% no mesmo período e na mesma comparação. No mês (julho) a queda foi de -23% em relação a julho do ano passado  (cf. Carta da Anfavea, nº 339, agosto 2014).

Portanto, os supostos “indicadores antecedentes” de Dilma indicam o contrário do que ela disse.

Aliás, é de uma arrogância superlativa uma pessoa que não entende a mais vulgar economia doméstica se meter com a econometria dos “indicadores antecedentes” - uma enrolação matemática que nem seus próprios autores compreendem, quanto mais a Dilma.

Não há razão para dizer que o papel ondulado, a energia elétrica ou a venda de carros sejam indicadores “antecedentes”, porque eles fazem parte do próprio processo produtivo, portanto, não antecedem a expansão ou a contração da economia.

Mas há razão de sobra para considerar a taxa de juros básica como um “indicador antecedente” do aumento ou redução da produção industrial ou do crescimento da economia.

No entanto, Dilma nem tocou nesse “indicador antecedente”. E aqui temos um embuste.

Alguns dilmistas que não têm o que dizer – porque não há o que dizer – descobriram que a grande realização de Dilma foi baixar os juros. Omitem que essa fase do governo Dilma terminou no dia 17 de abril de 2013, quando o BC/Copom reiniciou o aumento de juros – nove aumentos consecutivos, elevando os juros básicos em +3,75 pontos percentuais (p.p.) ou +51,72%, de abril de 2013 até abril de 2014.

Com isso, o governo levou os juros dos títulos públicos para o espaço e os outros juros da economia (financiamentos à empresas e consumidores) para fora da Via Láctea.

É evidente que isso estrangulou as empresas nacionais, sobretudo as indústrias - e o crescimento. Não existe novidade em juros cavalares provocarem uma recessão. Não há melhor “indicador antecedente” do que este, até porque ele é intencional: aumentar juros significa tirar recursos da produção. É algo tão óbvio que não é preciso provar, mas, se fosse necessário, bastaria ver que as próprias empresas produtivas, para não falir, são obrigadas a deixar, pelo menos parcialmente, a produção, para também especular no “mercado financeiro”.

Certamente, não é o mercado que aumenta os juros, mas o Banco Central (BC). O governo, portanto, estabelece os juros que ele mesmo irá pagar. A aberração de que sempre estabelece a taxa mais alta possível – ou seja, a taxa que mais favorece os bancos, fundos e outros rentistas – é o que se chama caráter de classe desse governo.

Trata-se de um governo, em tudo e por tudo, representante dos rentistas. Segundo o BC, de janeiro de 2011 a março de 2014, o lucro líquido total do sistema financeiro foi R$ 330 bilhões, 338 milhões e 814 mil. Ressaltemos: trata-se de lucro líquido, ou seja, o dinheiro que os rentistas entesouram depois de pagas todas as despesas (impostos, pessoal, etc.).

Resultado: se a economia conseguir chegar a 0,7% de crescimento até o fim do ano, o que não é garantido, o governo Dilma terá a média anual de 1,75% no aumento real do PIB - abaixo dos governos mais desastrosos, até agora, da História da República: Campos Sales, Washington Luiz, Castelo Branco e até abaixo de Fernando Henrique.

Não é qualquer um (ou qualquer uma) que consegue uma coisa dessas. É preciso ser muito incompetente e de uma sabujice sem limites aos quadrilheiros do mal chamado “mercado financeiro”, sobretudo os externos, cujo interesse é que o país não cresça, pois, senão, como continuariam a locupletar-se com juros, isto é, com dinheiro desviado da produção, e especialmente dos cofres públicos?

Qualquer sujeito que não seja obtuso, ou fanático conservador de um cargo que não lhe pertence (para ser fanático por Dilma, só com aditivo), sabe ou sente que a situação do país é um pântano, sem crescimento, com salários contidos (53% dos trabalhadores ganham até dois salários mínimos e 22% deles ganham absolutamente nada – v. a última PNAD), com emprego cadente (só na indústria paulista, nos últimos 12 meses, foram demitidos 106 mil e 500 trabalhadores – v. a Pesquisa de Nível de Emprego da FIESP) e crescimento zero (a diferença entre zero e 0,7% é, digamos, perfunctória), tendendo a negativo.

Que esse governo queira encobrir ou com frases supostamente “de esquerda”, ou meramente com mentiras, esse seu caráter de classe, só demonstra, diante do que está em verdade fazendo, esse mesmo caráter de classe. Quantas vezes isso já aconteceu, como tragédia ou como comédia, na História?

Assim, o sentido dessa política recessiva nada tem a ver com a inflação – pelo contrário, os juros altos são um fator que aumenta a inflação de custos na economia (sucintamente: os custos das empresas tornam-se mais altos por causa dos juros altos).

Tanto assim que a inflação, apesar dos aumentos de juros, aumentou a partir de janeiro de 2014 (o IPCA em 12 meses foi de 5,59% para 6,52% em junho).

Na entrevista à Globo, Dilma gabou-se de ter baixado a inflação. Realmente, o IPCA baixou dois centésimos, de junho para julho (6,52% para 6,50%), enquanto, no mesmo período em que os juros eram elevados, a indústria era triturada. Como dizem alguns economistas, nem existe prova de que esses dois centésimos, ou até mais, não poderiam ser atingidos sem a destruição provocada pelos juros na economia brasileira a partir de abril de 2013.

Traduzindo: é uma idiotice completa, absoluta e consumada dizer que uma redução de dois centésimos em algum índice de inflação foi causada por um aumento de +51,72% na taxa de juros. Com o mesmo rigor científico, poder-se-ia dizer que a unha encravada de algum prócer do governo melhorou depois do aumento de juros, portanto, a melhora foi causada pelo aumento de juros. Como, nesse governo, qualquer argumento vale para aumentar juros, dentro em breve vão descobrir uma epidemia de unhas encravadas no país.

Fonte: Hora do Povo/Carlos Lopes

 

 
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