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04/09/2014 | ‘Crise internacional’ da presidenta da República só atinge o Brasil

Para Dilma, qualquer desculpa extraterrestre vale para esconder que seus juros altos, cortes orçamentários e queda do investimento derrubaram a economia do país

O anúncio de que o Produto Interno Bruto (PIB), pelo segundo trimestre consecutivo, retroagiu – portanto, o país não somente não cresceu como, economicamente, diminuiu, e está em recessão - mereceu da presidente Dilma o comentário de que se trata de algo "momentâneo" e que "um dos motivos é o número de feriados que tivemos por conta da Copa do Mundo no Brasil". Ademais, disse ela que "somente os EUA, China e Reino Unido tiveram resultados positivos do PIB neste trimestre".

Ficamos em dúvida se ela atribuiu a queda do PIB (-0,6% no segundo trimestre do ano) ao presidente Lula, que trouxe a Copa para o Brasil, ou aos trabalhadores em geral, por trabalharem pouco. Como o seu ideal é que o Brasil seja "um país de classe média", compreende-se que ela não tenha os trabalhadores em grande apreço.

Mas... a Copa não tinha sido formidável, a melhor das Copas, etc., a ponto do governo não dar importância à derrota de 7X1 para os boches, quer dizer, os alemães? Como é que agora a Copa virou uma desgraça capaz de afundar o crescimento de uma economia do tamanho da nossa?

COPA

No primeiro trimestre, não houve Copa, e a economia caiu -0,2%. Como é que pode? Talvez seja porque o povo está viciado nessa história de descanso semanal, que o Getúlio inventou.

E quando a Copa foi em outros países, também não havia, aqui, um feriado ou semi-feriado nos dias em que a nossa Seleção jogava? Por que será que a economia não caía?

Dilma, aliás, esqueceu de consultar o calendário: das sete partidas que a Seleção jogou na última Copa, somente quatro foram no segundo trimestre (e uma delas, contra o Chile, foi num sábado). As outras três foram em julho, que pertence ao terceiro trimestre.

A explicação de Dilma serve para uma coisa: revelar o caráter – ou a ausência de caráter – do atual governo. É óbvio que depois de nove aumentos seguidos da taxa básica de juros (portanto, de todos os juros da economia, pois a taxa básica é o piso dos juros do país) seria impossível que o crescimento do país não fosse estrangulado. Por isso é que os investimentos (a compra de máquinas e equipamentos) levaram um tombo de -5,3% em três meses e -11% em um ano (ver matéria na página 2). Quem vai investir na produção, quando os ganhos com juros – e sem riscos – são infinitamente maiores?

Mais ainda quando a política do governo foi - a partir dos juros, mas não somente - de destruição da indústria: pelo subsídio cambial às importações e pelo afogamento dos setores produtivos na desnacionalização – ou seja, pelo domínio dos vários ramos da economia pelas multinacionais, que são monopólios cujo interesse é remeter lucros para as matrizes (inclusive ganhos com a especulação financeira) e aumentar as importações de componentes (bens intermediários) para montagem.

Em suma, a política do governo foi a de substituir a indústria nacional por maquiladoras estrangeiras – e até por balcões de vendas de importações.

Neste ano, anunciou o IBGE na terça-feira, a produção industrial já caiu -2,8% (a produção de máquinas e equipamentos caiu -7,8%; a de bens intermediários, maior setor da indústria nacional, caiu -2,5%; e a de bens de consumo duráveis, -9%).

Pode-se aquilatar, com isso, o grau de cinismo demonstrado por Dilma, ao dizer à imprensa que as propostas de Marina Silva "ameaçam a indústria" - ou, na mesma entrevista: "queria dizer que não fui escolhida para reduzir a importância da indústria".

Mas foi só isso o que ela fez. Essa é daquelas declarações que mereceriam uma avaliação que não podemos publicar – pois o HP é um jornal para toda a família.

A média de crescimento da produção industrial no governo Dilma até 2013 é 0,03% - ou seja, zero. De janeiro a julho de 2014, a produção industrial caiu -2,8%. Portanto, a produção industrial caiu no governo Dilma. Para ser exato, regrediu ao nível de 2007.

Nos últimos 12 meses, 106 mil trabalhadores foram demitidos na indústria de São Paulo e as falências das empresas nacionais ("médias empresas") aumentaram 131% no ano passado em relação ao último ano do governo anterior. Neste ano, até julho, o número de falências destas empresas já superava o ocorrido em todo o ano de 2010 (cf. Relatório Serasa, julho/2014).

Evidentemente, o maior perigo para a indústria é a continuação de Dilma no Planalto. O peso da indústria de transformação – o setor decisivo para o crescimento - no PIB é hoje inferior ao que tinha no governo Dutra, há mais de 60 anos.

Mas Dilma não tem escrúpulos de dizer que Marina é quem ameaça a indústria. Infelizmente, não podemos usar o qualificativo adequado a essa podridão moral, onde tudo vale – sem honra e sem pudor - por um cargo.

Este é o segundo trimestre consecutivo em que o crescimento foi negativo. No terceiro trimestre de 2013, o crescimento também foi negativo. Sucintamente:

3º trim./2013: -0,6%;

4º trim./2013: 0,5%;

1º trim./2014: -0,2%;

2º trim./2014: -0,6%.

Nos quatro últimos trimestres, em três o crescimento foi negativo.

Na tabela da página ao lado, estão todos os resultados do crescimento – ou da falta de crescimento - no governo Dilma, trimestre contra trimestre anterior. Com exceção do segundo trimestre de 2013, a mediocridade ronda o zero ou se amasia com o abaixo de zero.

No entanto, diz ela que "somente os EUA, China e Reino Unido tiveram resultados positivos do PIB neste trimestre".

Dos países que já divulgaram a variação do PIB no segundo trimestre deste ano (ao todo 100 países), o Brasil é o nonagésimo terceiro em crescimento. Abaixo do Brasil somente ficaram sete países. Todos os demais países estão acima.

Porém, Dilma está falando dos países que cresceram (ou seja, tiveram aumento, variação positiva, do PIB), não dos que cresceram mais que o Brasil. Nesse caso, existem 78 países que cresceram no segundo trimestre, em relação ao primeiro trimestre deste ano.

ÚNICO

É interessante que ela fale, além da China, somente dos EUA e Inglaterra e omita, por exemplo, a Índia (+1,4% no segundo trimestre sobre o primeiro) e a Indonésia (+1,2%), os dois com crescimento superior ao dos EUA ou da Inglaterra. Certamente, ela deve achar que Índia e Indonésia (ou o Vietnã) não são países. As mentes colonizadas são assim.

Mas é óbvio porque ela está mentindo: no segundo trimestre, até a Grécia (+0,5%) e Portugal (+0,6%) cresceram, enquanto o Brasil encolhia. Assim como a Noruega (+0,9%), Hungria (+0.8%), Polônia (+0,6%), Coreia do Sul (+0,6%), Eslováquia (+0,6%), Estônia (+0,5%), para não falar da Bolívia, Botswana, Angola, Bangladesh, Ruanda, que cresceram também, e não pouco.

Essa é a "crise internacional" de Dilma: uma crise internacional que só afeta o Brasil. Também, é o único país que tem Dilma como presidente.

 Fonte: Hora do Povo/Carlos Lopes

 

 
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