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17/12/2014 | A passagem de Dilma para o lado dos bancos e das multinacionais

Joaquim Levy vai proporcionar momentos de grande emoção ao governo dilmista que se inicia em janeiro

Alguns indivíduos, por ingenuidade ou pela má-fé que caracteriza os pequenos interesses, andaram outra vez falando no "cerco da direita" ao governo Dilma. Resta saber para que a direita iria cercar o seu próprio governo. Só se for para aplaudir, como, na segunda-feira, fez a claque da senadora Kátia Abreu.

O que é ainda mais revelador, Katia Abreu é a ala esquerda do novo Ministério de Dilma. Perto do sr. Joaquim Levy, ela parece com o falecido Bakunin. É apenas favorável ao neo-escravagismo...

O governo Dilma é, pelo menos desde o leilão do campo de Libra, uma espécie de proconsulado ou, melhor, governo Herodes. Do ponto de vista de sua ideologia, não é qualitativamente diferente do governo Petain/Laval, na França, ou do governo Quisling, na Noruega, exceto pelo fato de que seu colaboracionismo, ao invés dos alemães, é, sobretudo, aos monopólios financeiros e ao governo dos EUA.

Não se trata, como alguns estonteados que apoiaram Dilma nas eleições disseram, de que ela se rendeu à quadrilha financeira norte-americana apenas alguns dias depois das eleições, mais ou menos como disse Hamlet sobre o novo casamento de sua mãe, após a morte do primeiro marido ("... Os assados do velório/ Puderam ser servidos como frios na mesa nupcial").

Já que a Comissão da Verdade apresentou à Dilma os seus resultados, temos um bom paralelo: durante a ditadura, houve os que se renderam – ou algo equivalente - mas não deduraram companheiros, não colaboraram com a repressão, não ajudaram os torturadores a ir à casa de revolucionários para que prendessem suas famílias, não renegaram a causa na televisão, não difamaram a resistência com discursos preparados pelos algozes. Em síntese: render-se não é, necessariamente, aderir ao inimigo e tornar-se seu agente, ou seja, passar para o outro lado, ao modo Anselmo.

Dilma e seu governo se renderam há alguns anos. Agora, o que ela está fazendo – e não foi depois das eleições – é aderir ao inimigo, agir contra o povo e a Nação como títere do outro lado, colaborar com os algozes do seu próprio país. A nomeação de Joaquim Levy tornou isso mais nítido, pois só um débil mental pode dizer que esse funcionário dos bancos - inclusive, e principalmente, dos bancos e fundos de Wall Street, aos quais serviu diretamente no FMI - aderiu ao "programa histórico do PT".

Esse tipo de besteira só faz enfatizar que Dilma aderiu ao "programa" dos monopólios financeiros multinacionais – a pilhagem do Brasil, com uma monstruosa recessão, a paralisia do país por três anos, o corte total ou quase total dos investimentos públicos, a disparada alucinada ("parcimoniosa", segundo o BC) dos juros, o câmbio deformado para subsidiar importações e encarecer a produção interna, a privatização que vai das estradas e aeroportos até o petróleo, com a formação de monopólios privados no lugar dos serviços públicos, em suma, a desindustrialização e desnacionalização do país.

Pode-se resumir esse "programa" - que já fora colocado em prática antes de Joaquim Levy, mas adquire maior capacidade destrutiva com Levy mandando no governo - numa palavra: a recolonização (ou, se o leitor quiser, a neo-colonização) do Brasil.

Dilma, sem Joaquim Levy, apenas com o debilóide do Mantega, já conseguiu resultados fenomenais.

No momento, estamos exportando minério de ferro para a China a US$ 60/tonelada e importando trilhos a US$ 850/tonelada, vindos da mesma China ou do Leste Europeu.

Nós estamos exportando petróleo para os EUA e importando gasolina e diesel – o que significou, este ano, de janeiro a outubro, um déficit de U$ 17 bilhões e 522 milhões.

Nós estamos exportando bauxita e importando alumínio (pela primeira vez em 30 anos, em 2014 somos importadores líquidos, ou seja, importamos alumínio mais do que exportamos).

Nós estamos exportando café verde e importando café industrializado da Suíça e da Alemanha.

Como o leitor sabe, é muito difícil fabricar trilhos (o Brasil já foi o segundo produtor do mundo) ou alumínio (o Brasil já foi o quinto produtor mundial) ou torrar café (é até excessivamente óbvio mencionar que estamos mais habilitados do que os suíços ou alemães no que se refere a qualquer café, inclusive os "blends" - as misturas e cafés especiais).

O que é essa loucura (e demos apenas uma amostra), senão a transformação do Brasil – numa medida jamais vista, mesmo no governo Fernando Henrique, com sua histeria privatizadora – em uma colônia que fornece produtos primários à metrópole com preço vil (o preço do minério de ferro despencou 40% desde janeiro) e importa produtos industrializados?

Assim, a taxa (trimestral) de investimento da economia caiu de 20,5% do PIB no terceiro trimestre de 2010 para 17,4% no terceiro trimestre de 2014 (cf. IBGE, Contas Nacionais Trimestrais, p. 21).

Um estudo de dois economistas, mostra que a causa dessa queda na taxa de investimento foi a violenta queda nos lucros das empresas nacionais (mas não das estrangeiras), a partir de 2011 (Carlos A. Rocca e Lauro Modesto Santos Jr., "Redução da taxa de poupança e o financiamento dos investimentos no Brasil - 2012/2013", IBMEC, nov./2013, p. 14).

Os economistas que fizeram esse trabalho estão longe de concordar conosco nas questões gerais de política econômica (ou de economia política). Por isso mesmo, é bastante importante o que podemos concluir dos números agregados por eles. Mas aqui as conclusões são nossas: por exemplo, a maioria das empresas nacionais foi reduzida a contar apenas com recursos próprios para investimento – ou seja, o desvio do BNDES para despejar dinheiro em multinacionais, monopólios como os do cartel que assaltou a Petrobrás e picaretas do tipo Eike Batista teve consequências tétricas para o capital privado nacional.

Mesmo assim, essas empresas, para resistir à brutal política antinacional e anti-industrial do governo Dilma, estão cada vez mais endividadas e resistem com um perigoso nível de "alavancagem" - isto é, funcionam com uma dívida crescente em relação ao patrimônio, para não falar dos lucros.

Atualmente, o peso da indústria no PIB é inferior ao que era no governo Dutra, há quase 70 anos – e isso é um resumo da regressão colonial do país.

Dirão alguns leitores: durante a ditadura, Dilma teve um bom comportamento, inclusive diante da tortura. Será possível esse grau de traição ao país, e, antes de tudo, ao seu passado?

Infelizmente, leitor – e nós conhecemos bem o assunto – um bom comportamento em determinado momento, não traz, em si, nenhuma garantia para o comportamento futuro.

Laval, talvez o mais nojento traidor da história da França, começou sua carreira como advogado trabalhista que pertencia à ala esquerda da SFIO (Seção Francesa da Internacional Operária, ou seja, o partido socialista). Era um anarco-sindicalista que assim foi eleito deputado para a Assembleia Nacional. O que não o impediu de passar à direita e, depois, ao papel de fantoche dos nazistas na França ocupada.

Quisling iniciou a vida política no Partido Comunista – e da Rússia, não da Noruega. O que também não o impediu de tornar o próprio nome um qualificativo repugnante de traição, quando os nazistas invadiram a Noruega.

Para mencionar Lacerda apenas de passagem, esses são dois dos piores traidores que já apareceram no mundo.

Fonte: Hora do Povo/Carlos Lopes

 

 
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