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04/08/2015 | Sérgio Rubens, presidente do PPL: “o país não aguenta mais 3 anos e meio de Dilma”

Em entrevista ao HP, o presidente nacional do Partido Pátria Livre (PPL), Sérgio Rubens de Araújo Torres, afirma que “do meio do primeiro governo de Dilma para a frente, a agenda neoliberal passou a predominar largamente, e, agora, integralmente”. Sobre a Lava Jato, considera que “presidente da República não pode obstruir a ação da Polícia e da Justiça, ainda mais num caso dessa gravidade”. 

     Hora do Povo - O governador Ciro Gomes, em recente entrevista, disse que Dilma é “uma pessoa séria”, mas que “se lançou em uma agenda prática que está desconstituindo a legitimidade do seu mandato”. Dilma é uma pessoa séria?

Sérgio Rubens - Ele disse, mas foi antes dessa afirmação fantástica que ela fez, de que a operação Lava Jato derrubou nada mais nada menos do que 1% do PIB nacional. Tamanha falta de respeito com a verdade não é coisa de gente séria. Mentir desse jeito para insuflar a opinião pública contra a investigação também não é. Presidente da República não pode obstruir a ação da Polícia e da Justiça, ainda mais num caso dessa gravidade. Há quem diga que a intenção não foi essa, que ela só falou para safar a sua responsabilidade no retrocesso da economia. Mas, nesse caso, que seriedade isso tem?

HP - Mas a Dilma tem um passado...

SR - Kautsky e Pierre Laval também tinham. Veja as trajetórias de Serra, Aloysio Nunes, do grego Tsipras. Em sentido oposto, veja Teotonio Vilela. As pessoas sempre mudam. Pode ser muito ou pouco, mas estão sempre mudando para melhor ou para pior. Quem fica parado é poste.

HP - Pode ser mais explícito?

SR - A Presidência da República fez muito mal à Dilma, ela foi se deixando seduzir pela ideia de que governar é representar os interesses dos que ocupam o topo da pirâmide social. E não foi só ela, a maior parte da cúpula do PT foi levada de roldão depois que a crise eclodiu nos centros imperialistas e a pressão sobre o Brasil aumentou. Do meio do primeiro governo de Dilma para a frente, a agenda neoliberal passou a predominar largamente, e, agora, integralmente.

HP - E Lula?

SR - Lula resistiu a essa agenda dos juros altos, cortes nos investimentos públicos, redução de salários, privatizações, alinhamento com os EUA, por isso fez um bom governo, particularmente no segundo mandato, quando a melhoria da vida do povo foi sensível. Agora, sinceramente, não sei. Se criticar o rumo tomado por Dilma, ele derruba o governo, mas não precisava apoiar como tem feito.

HP - Quando você fala dos interesses que ocupam o topo da pirâmide social, está falando das multinacionais e dos grandes bancos?

SR - Estou, mas não principalmente por serem estrangeiras ou serem grandes, e sim por suas características monopolistas. Portanto, é preciso incluir também as empresas privadas nacionais monopolistas, como a Odebrecht, por exemplo.

HP - Por quê?

SR - O monopólio privado é antissocial pela própria natureza. Sua essência consiste na busca do sobrepreço. E sobrepreço significa ganhar pelo que não se produziu, parasitar a sociedade, escravizá-la a um gigantesco saco sem fundo. Por isso, dizia Marx, ele é a negação do modo de produção capitalista. Nos ramos dominados por uma ou por poucas grandes empresas, elas não concorrem entre si, se aliam para acertar preços superiores ao valor da produção. O Cartel do Bilhão é uma verdadeira aula prática de como isso funciona. As circunspectas reuniões do Copom, elevando os juros sem parar, num país que é o campeão mundial dos juros altos, é outra. As remessas de lucros bilionárias das multinacionais, as desonerações que receberam do governo, o projeto de redução da jornada de trabalho com redução dos salários, extraído por pressão das montadoras, também são exemplos significativos.

HP - Mas o que fazer, extinguir, estatizar isso tudo?

SR - Não digo extinguir, mas conter, frear a sua ação predatória, senão eles destroem a economia, como estão fazendo agora. É por isso que não se pode governar a partir desses interesses, e os políticos que optam por representar tais setores e interesses precisam ser combatidos, sejam do PSDB, do PT, do PMDB, de qualquer partido.

HP - Com que base social essa posição pode contar?

SR - A grande maioria das empresas brasileiras não têm natureza monopolista e gostariam bastante que os monopólios tirassem os pés de seus pescoços. Quanto a trabalhadores e classe média, nem é preciso dizer.

HP- Se o caminho de Dilma trouxe essa crise que ceifou 1 milhão de empregos entre janeiro e junho, qual a alternativa para superá-la?

SR - Tecnicamente é fácil: reduzir os juros e liberar recursos para o investimento público, lembrando sempre o que dizia o saudoso Eduardo Campos - “cada ponto da Selic representa R$ 28 bilhões” -; abrir um novo ciclo de substituição das importações, para recompor a indústria, dando prioridade às empresas genuinamente nacionais nas encomendas e financiamentos do Estado; aumentar os salários e aposentadorias e melhorar os serviços públicos. Politicamente, é uma luta, mas isso já foi conseguido no Brasil por diversas vezes, até porque o reinado dos monopólios e seu receituário tacanho sempre redunda em crise - vide os governos FHC e Dilma.

HP - Mas e se os monopólios não aceitarem o freio?

SR - De fato, eles não têm por que aceitar freio de governantes que se deixam abastecer por suas propinas, que fazem vista grossa quando seus pares se locupletam e que berram quando a Polícia e a Justiça resolvem cumprir a lei. Mas de um governo que deixe claro as regras do jogo, e que elas são para valer... Por que não?

HP - Um projeto para 2019?

SR - 2019 está muito longe, o país não aguenta mais três anos e meio de Dilma.

HP - Impeachment, sobe o Temer, o que adianta?

SR - Não há fato determinado que justifique o impeachment. Se surgir, vamos avaliar. Pedalada, até no nome, está mais para manobra que para crime grave, vai ser tiro no pé de quem quiser ir por essa via. A Lava Jato, até agora, encostou no tesoureiro da campanha de Dilma, mas não nela. Além disso, que moral tem o Congresso para depor a presidente, enquanto não remover de seu próprio seio os "heróis" da Lava Jato, inclusive os presidentes das duas Casas?

HP- Assim está parecendo “Fica Dilma”...

SR - Os maiores crimes cometidos pela presidenta foram o estelionato eleitoral - dizer uma coisa na campanha e fazer outra depois de eleita - e ter mergulhado o país numa crise profunda e devastadora, com a providencial ajuda de Cunha e Renan, aprovando suas leis de arrocho, no Congresso. Mas não existe lei contra isso. Deveria, mas não há. Por esse motivo, o Partido Pátria Livre tem considerado mais acertado defender a renúncia de Dilma e Temer, para que haja novas eleições. O nosso foco é criar condições para a convocação de eleições no mais curto espaço de tempo possível, porque Dilma não vai melhorar e o povo não vai aceitar qualquer saída para a crise política que não passe por eleições para presidente e uma limpeza em regra no Congresso Nacional. A sujeira foi grande, a limpeza terá que ser profunda.

HP - Mas, havendo novas eleições, quem ganha é o Aécio.

SR - Só se vocês quiserem. O PT usou essa tática do espantalho contra Eduardo Campos, em 2014. E Eduardo, sem demérito para Marina, ia ganhar a eleição. Hoje, as condições estão muito mais maduras para o povo perceber que PT e PSDB estão se digladiando pelo mesmo espaço, ambos querem representar as mesmas forças e o mesmo projeto neoliberal. A liderança capaz de representar uma alternativa a essa briga de comadres e galvanizar as forças comprometidas com o projeto nacional vai surgir nos próximos meses, dentre aqueles que mais se destacarem na denúncia e na luta contra as medidas antinacionais e antipopulares do governo.

HP - PT e PSDB são farinha do mesmo saco?

SR - O saco ainda é diferente, mas a farinha é cada vez mais a mesma. O PT votou como carneirinho todo o "ajuste" de Levi. Já engoliu o projeto de Serra, de 10 anos de privação da liberdade, a título de "medida sócio-educativa" (!), pretendendo que isso seja alternativa à redução da maioridade penal. E está engolindo o PLS 131, também de Serra, o fim da obrigatoriedade da Petrobras como operadora única do pré-sal, desde que se inclua no texto a palavra preferência. E assim troca-se um direito, duramente conquistado, por fumaça. É como se dissessem: todo homem tem direito de ser livre, mas só se quiser, se preferir ser escravo...

HP - E Lula, saiu do jogo?

SR - Não, mas o apoio às barbaridades de Dilma está minando rapidamente a sua popularidade.

 

 

 
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