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21/08/2015 | Governo arrocha salário e usa CEF e BB para saciar lucro das múltis

“Não é obrigatório que elas não demitam”, disse a presidente da Caixa

Caixa fornecerá dinheiro do FAT e do FGTS, ou seja, dinheiro dos trabalhadores que estão sendo demitidos aos borbotões por essas montadoras

O pacote de fornecimento de dinheiro por bancos públicos às montadoras multinacionais do setor automobilístico, anunciado pelo governo na terça-feira, não é apenas indecente. Do ponto de vista econômico, é um crime contra os trabalhadores, contra os empresários nacionais – portanto, contra o país.

Serão R$ 5 bilhões da Caixa Econômica e R$ 3,1 bilhões do Banco do Brasil, em convênio diretamente assinado com o cartel automobilístico, a Anfavea. Ou seja, R$ 8,1 bilhões para as multinacionais pagarem fornecedores com dinheiro que não é seu, podendo, portanto, aumentar suas remessas de lucros para as matrizes, mesmo que não vendam nem um velocípede (o financiamento terá uma carência de seis meses, “até que a situação melhore”, disse a representante do governo – quanto aos fornecedores, só terão acesso às mesmas condições de financiamento através das multinacionais).

Disse o sr. Levy que isso não afeta o “ajuste”. Realmente, até ajuda.

O dinheiro que a Caixa fornecerá é do FAT e do FGTS, ou seja, dinheiro dos trabalhadores, que estão sendo demitidos aos borbotões por essas montadoras.

Qual o efeito disso sobre o crescimento?

Nenhum, pois não é por falta de dinheiro que as filiais de multinacionais não fazem o país crescer, e, sim, porque não é para isso que elas existem.

Mesmo olhando pelo ângulo estreito (aliás, oligofrênico) de quem acha que as montadoras são o setor principal para o crescimento (não falta muar no governo para achar essas coisas), como é que elas vão aumentar as suas vendas, se a renda da população está sendo rebaixada – ou seja, drenada para o setor financeiro – e o crédito é cada vez mais escasso?

O efeito de colocar o FAT, o FGTS, a Caixa e o BB à disposição das montadoras multinacionais será, portanto, o de aumentar a sua margem de lucro – numa situação em que as margens das empresas nacionais estão sendo evaporadas pela recessão, isto é, pela política do governo.

Disse bem o sr. Levy que dar dinheiro dos trabalhadores, a juros inferiores aos do mercado (cáspite!), às filiais de multinacionais não afeta o ajuste. Só afetaria se o dinheiro fosse para empresas nacionais ou para os trabalhadores. Aí, seria um desajuste.

Ainda bem que ninguém teve essa ideia. Pior, imaginem só se o dinheiro fosse para aumentar a aposentadoria do Zé Marmita, aquele que passou a vida saindo de casa às quatro da manhã para ir ao trabalho pendurado na porta do trem, tendo como única diversão um bate-bola de meia, depois de engolir às pressas  a comida requentada.

Como é consenso entre Dilma, Levy, Renan & quadrilha, o Zé Marmita nem devia se aposentar. É isso que causa o desajuste: sujeitos que acham que têm direito a se aposentar só porque passaram 40 anos se matando para sustentar a família.

Dilma/Levy, aliás, segundo as previsões da própria corriola dos economistas de banco, conseguirão, se não mudar o governo, um êxito colossal: dois anos de recessão, dois anos seguidos de retrocesso ou, como chamam alguns, de “crescimento negativo”.

Tal efeméride não ocorre no Brasil desde 1931, há, portanto, 84 anos – mais precisamente, 85, pois a previsão inclui 2016.

Na época, houve uma revolução, que transformou o Brasil, depois de jogar os carcomidos no mar (é verdade que a bordo de navios que iam para a Europa, pois Getúlio era um sujeito muito compassivo), e iniciou o maior ciclo de crescimento de um país capitalista no século XX.

Mas, voltemos ao fornecimento de dinheiro, pelo governo Dilma, às multinacionais.

O mais cínico é a conversa de que “os juros serão menores para as empresas que não tenham demitido”, mas “não é obrigatório que elas não demitam”, como disse a srª Belchior, presidente da Caixa.

A questão é que elas já demitiram em massa e continuam demitindo.

Não há setor que tenha demitido tanto nos últimos meses, quanto as montadoras automobilísticas. E, certamente, como já apontamos, não foi por falta de dinheiro. Se fosse isso, elas teriam reduzido o preço dos automóveis, que, no entanto, continuam extorsivos, porque são preços de monopólio – e monopólio deixado à solta pelo governo: os preços dos automóveis no Brasil são os maiores do mundo porque, como aponta um estudo do Morgan Stanley – banco que não pode ser acusado de inimigo do capital estrangeiro – a margem de lucro aqui é três vezes, em média, a de outros países, inclusive México, Chile e Argentina.

Os monopólios da indústria automobilística são, também, há muito, e por consequência dos preços extorsivos, os que mais remetem ganhos para o exterior - mais de US$ 12 bilhões de 2011 a 2014, só em lucros remetidos oficialmente, ou seja, sem contar as formas disfarçadas de remessa de lucros (superfaturamento das importações, pagamento de empréstimos à matriz, etc.). Nem mesmo o ultra-desnacionalizado setor de bebidas conseguiu enviar tanto para o exterior.

Na última Pesquisa de Nível de Emprego da FIESP, publicada no dia 13, as demissões das montadoras são 22% do total na indústria paulista, muito acima do segundo lugar (a indústria de produtos de borracha e de material plástico, com 13% das demissões).

São tantas as demissões das montadoras, que elevaram São Bernardo e São Caetano ao posto de municípios em que mais cresce o desemprego em São Paulo – Estado onde se localiza 40% do parque industrial do país.

Com essas demissões, a folha de pagamento real das montadoras, desde janeiro, já caiu -11,8%, segundo o IBGE anunciou na última quarta-feira.

Não obstante, Dilma baixou, no dia 6 de julho, a Medida Provisória nº 680, permitindo um corte no salário de 30% - em prol, evidentemente, das montadoras – usando, inclusive, dinheiro dos trabalhadores (o FAT, Fundo de Amparo ao Trabalhador) para aumentar a margem de lucro das multinacionais do setor (cf. HP, 08/07/2015 e HP, 15/07/2015).

O cúmulo da hipocrisia foi chamar esse corte de salário e espoliação do dinheiro dos próprios trabalhadores pelas multinacionais de “Programa de Proteção ao Emprego”.

Há poucos dias, a Mercedes Benz disse, em nota, que a MP 680 era “insuficiente” para impedir demissões.

Dizem que a solução – colocar a Caixa, o BB e o dinheiro dos trabalhadores com a função social de cevar monopólios multinacionais - brotou, mais rápido que chuchu em pé de serra, na mente privilegiada do ministro Mercadejante, economista de escol,  daqueles que ensinam a fazer bolo com meio-ovo, quando se trata de empresas nacionais ou dos trabalhadores.

Foi logo apoiado pelo ministro da Fazenda e outros gênios do dinheiro alheio (não, leitor, não é ainda do pixuleco que vem por aí que estamos falando, mas da incrível capacidade de gestão que demonstram os estadistas do atual governo, quando se trata de dinheiro que não é deles, mas do povo).

Fonte: Jornal Hora do Povo/Carlos Lopes

 

 

 
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