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16/12/2015 | Povo quer que Dilma saia mas não quer que o Temer fique

Impeachment pela metade não empolga

Cometeram os mesmos crimes. Se pedalaram juntos, paguem juntos

Povo quer a chapa Dilma e Temer fora do Planalto

Baixa adesão às manifestações refletiu rejeição a ambos

Enquanto a Polícia Federal batia na porta do sr. Cunha e de ministros do carrossel holandês do PMDB (aquele cujos integrantes trocam velozmente de ala, mas sempre de acordo com os mais firmes princípios morais e ideológicos), somente alguns bobos, desses que vivem num mundo virtual fabricado por eles mesmos, acharam - ou, pelo menos, berraram - que alguma coisa mudou com as manifestações de domingo ou com o fato de serem evidentemente menores que as anteriores. Defender Dilma e se achar "de esquerda" é se tornar um falsário – com um cérebro de tamanho próximo ao do ovo do Aedes Aegypti.

É óbvio que não é nada entusiasmante trocar Dilma por Temer – todo mundo sabe que Temer promete mais do mesmo. Seu programa é aquele que Dilma vem executando, com disposição de piorá-lo.

Obviamente, essas não são as únicas opções – são necessárias eleições gerais para limpar esse aterro pouco sanitário em que se tornou a vida política em nosso país.

Mas, é claro que aqueles que convocaram os atos de domingo permaneceram amarrados a Temer, ao falar de impeachment apenas para Dilma.

Por falar nisso, o governo acaba de enviar ao Fórum de Debates sobre Políticas de Emprego, Trabalho e Renda e de Previdência Social a proposta de uma idade mínima única de aposentadoria para mulheres e homens, assim como de tempo igual na contribuição à Previdência (ver matéria na pág. 2).

Um dos apoiadores da proposta resumiu assim a sábia fundamentação do governo federal:

"As mulheres vivem mais do que os homens, bem mais. A expectativa de vida supera uma década. Mas, independentemente disso, elas se aposentam antes. O motivo é a chamada ‘dupla jornada’, que consistiria em cuidar da casa e dos filhos. Ocorre que ter uma família e filhos são opções pessoais que não podem ser repassadas como ônus ao Poder Público."

Ao Poder Público cabe repassar dinheiro público para o empanzinamento dos cofres de bancos e outros rentistas – ou proteger a Samarco, o BTG Pactual, e toda espécie de marginal com origem externa.

Quanto aos problemas das mulheres... elas que não casem, não tenham filhos, e, provavelmente, não menstruem nem entrem na menopausa. O que o Poder Público tem a ver com isso?

Qual a diferença dessa proposta do governo, que foi assinada pelo sr. Levy, para a daquele papa-defunto, Temer, que, no programa da ponte que caiu, quer dizer "ponte para o futuro", considera que "as causas destes problemas [da Previdência] são simples: as pessoas estão vivendo mais e as taxas de novos entrantes na população ativa são cada vez menores. A solução parece simples: é preciso ampliar a idade mínima para a aposentadoria, de sorte que as pessoas passem mais tempo de suas vidas trabalhando e contribuindo, e menos tempo aposentados"?

Não é tudo muito "simples"? É só transformar a ampliação da vida em uma desgraça, que estará tudo resolvido...

Em suma, a diferença entre Dilma e Temer é, como diziam os juristas, perfunctória, exceto aquelas que são inevitáveis, mas não têm importância do ponto de vista político.

Mas, se isso é verdade quanto ao que eles são, também o é em relação ao que fizeram até agora.

Na última edição, nos referimos aos nove decretos (todos sem numeração) em que Temer, exercendo a Presidência, estabelece créditos suplementares sem autorização do Congresso, passando por cima da lei orçamentária – e, por consequência, cometendo crime de responsabilidade, tal como definido na Lei do Impeachment, a Lei nº 1.079/1950, que diz o seguinte em seu 10º artigo:

"Art. 10. São crimes de responsabilidade contra a lei orçamentária:

(…)

"4 - Infringir, patentemente, e de qualquer modo, dispositivo da lei orçamentária;

(…)

"6 - Ordenar ou autorizar a abertura de crédito em desacordo com os limites estabelecidos pelo Senado Federal, sem fundamento na lei orçamentária ou na de crédito adicional ou com inobservância de prescrição legal;

"(…)"

Temer foi co-autor de todos os crimes da administração da senhora Rousseff.

Não espanta, pois, que o povo não queira trocar uma criminosa por outro criminoso.

Mas isso apenas piora a situação de Dilma. Pois, se há alguém responsável por uma insignificância como Temer, somente notável pelos acordos que jamais cumpriu – ou, usando o vernáculo popular, pela trairagem – estar hoje em tão alto cargo, esse responsável chama-se Dilma Rousseff. Porque Temer é seu vice – e de mais ninguém. Por mais que Lula tenha influenciado a escolha ou que o PMDB tenha imposto a candidatura de Temer, quem tem a palavra final nessa escolha é a candidata a presidente. Exceto se Dilma estivesse disposta a aceitar qualquer um – mesmo que fosse Al Capone ou Adolf Hitler – para se eleger e se reeleger. Pensando bem, deve ter sido esse o caso. Mas isso, também pensando bem, não a torna menos responsável – e, sim, mais responsável.

O povo continua desejando ver Dilma fora da Presidência da República. Inclusive os que votaram nela. As pessoas (quer dizer, as pessoas normais) continuam achando que destruir o país, desempregar dois milhões de pessoas (o total de pessoas que procuram emprego chegou a nove milhões no fim do terceiro trimestre do ano); acobertar e beneficiar-se com o assalto à Petrobrás; privatizar a Petrobrás e chamar isso de "desinvestimento"; fazer leilão de petróleo desde Libra – o maior campo petrolífero do mundo - até em terreno baldio (nesse caso, para obter o equivalente a um apartamento em bairro de grã-fino - v. matéria na página dois); tudo isso, acham as pessoas, é crime.

Aliás, pior que privatizar as subsidiárias e outros negócios da Petrobrás e chamar isso de "desinvestimento", só privatizar hidrelétricas, aeroportos, portos, ferrovias e chamar isso de "investimento".

A questão é que afastar somente Dilma é completamente insuficiente – em síntese, não resolve o problema do país. Nem é justo punir uma e deixar o outro impune – e com a Presidência.

Quem acredita que Temer faria um governo melhor que Dilma? Nem Temer acredita nisso.

Portanto, é preciso afastar os dois do queijo – quer dizer, da Presidência.

Outro dia, ouvimos um dilmista dizer que isso é impossível.

Impossível é viver desse jeito por mais três anos. Mas é claro que um dilmista somente poderia se apegar a Temer para dar sobrevida à sua chefe. Mais uma razão para que os dois estejam longe do Planalto, do Alvorada, da Petrobrás e do Banco do Brasil.

 Fonte: Jornal Hora do Povo/Carlos Lopes

 

 
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